Revista cita o “multimilionário” Vittorio Medioli em esquema envolvendo compra de parlamentares

Um dos caminhos percorridos pelo dinheiro público, de acordo com a conveniência do presidente Jair Bolsonaro e aliados, levou cerca de R$ 64 milhões até uma concessionária de caminhões do empresário e político de Minas Gerais.

Tão logo assumiu o cargo, o presidente Jair Bolsonaro começou a se render ao que há de pior em Brasília, informa a edição da revista Crusoé desta semana. Em reportagem sobre corrupção, os repórteres Patrick Camporez e Luiz Vassallo explicam como bilhões de reais beneficiam, por baixo dos panos, parlamentares escolhidos a dedo pelo Palácio do Planalto. Por meio de uma espécie de orçamento paralelo, o dinheiro público serve para garantir sustentação mínima na Câmara e no Senado. Um dos caminhos percorridos pelo dinheiro público, de acordo com a conveniência do próprio governo e seus aliados, levou cerca de R$ 64 milhões até uma concessionária de caminhões do empresário e político de Minas Gerais Vittorio Medioli.

Além dos fatos narrados pela Crusoé, Medioli aparece como réu em processo que tramita na 5ª Vara Criminal de São Bernardo do Campo. Ele e mais 12 executivos dos grupos Sada e Tegma respondem por abuso de poder econômico, dominação de mercado, eliminação total ou parcial de concorrência, fixação artificial de preços, formação de cartel e associação criminosa. Em outro inquérito, aberto pela Polícia Federal, o empresário e político de Minas Gerais é apontado como chefe da organização criminosa que controla o setor de transporte de veículos novos. Medioli Já foi condenado em primeira e segunda instâncias na Justiça Federal por evasão de divisas, a quatro anos e quatro meses de reclusão.

A revista, que qualifica Medioli como “amigo” do presidente, revela:

“Desde a liberação dos recursos do orçamento paralelo, a Deva Veículos, uma das várias empresas de propriedade do prefeito, tem fechado seguidos contratos com a Codevasf [Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba] que já somam 64 milhões de reais. O mecanismo funciona de maneira semelhante aos casos de Fernando Bezerra [também citado na matéria]: parlamentares aliados do governo mandam o dinheiro para a companhia e definem o bem ou serviço que deve ser pago com ele. Somente o senador Carlos Viana, do PSD, mesmo partido de Vittorio Medioli, destinou 32 milhões de reais ao braço mineiro da Codevasf a partir do orçamento paralelo.”

A matéria avança:

“Uma parte desse valor já se transformou em compras na empresa do prefeito. Em 12 de março deste ano, a Codevasf adquiriu 32 caminhões coletores de lixo junto à Deva. Cada unidade saiu por 294,5 mil reais (ao todo, foram gastos 9,4 milhões). Há indícios de que o valor pago está acima do preço normal — em dezembro do ano passado, a mesma Deva vendeu um caminhão semelhante, e com potência até maior, por 30 mil reais a menos.”

A lógica do esquema, segundo a Crusoé, é a mesma dos escândalos que emergiram nos governos anteriores: usar dinheiro público para garantir o apoio de congressistas.

Os repórteres explicam:

“Era assim no mensalão, o esquema descoberto no primeiro mandato de Lula, e era assim no petrolão, em que contratos gigantescos da Petrobras se convertiam em propinas para políticos aliados do governo. A diferença é que, agora, sob Bolsonaro, a coisa se dá com recursos do orçamento, usando de subterfúgios para maquiar a distribuição.”

E acrescentam:

“Para o modelo dar certo, foi preciso criar a figura das “emendas de relator”, em que um pedaço dos gastos anuais do governo tem necessariamente que ser aplicado de acordo com a indicação do parlamentar escolhido para ser o relator do orçamento federal, normalmente um aliado do governo. Só no passado, esse naco foi de 20 bilhões de reais.”

Ainda conforme a reportagem, “a dinheirama passou a ser gasta pela pasta [Ministério do Desenvolvimento Regional, comandada por Rogério Marinho] de acordo com uma planilha elaborada pelo Planalto na qual deputados e senadores foram agraciados, na medida de sua importância e de sua lealdade ao governo, com valores que eles próprios podiam dizer onde deveriam ser alocados.

Para chegar a Medioli e a outros políticos, a revista seguiu o caminho do dinheiro:

“Sabia-se, até agora, que uma parte das indicações dos parlamentares foi destinada, por exemplo, à compra de tratores com preços superfaturados em mais de 200%. Faltava ainda apontar quem se beneficiou do dinheiro, lá na ponta. A partir das planilhas e dos ofícios enviados ao ministério, Crusoé seguiu o caminho de uma parte da verba para saber exatamente onde ela foi parar. O resultado confirma a lógica: depois de ser transferida para a Codevasf, uma companhia estatal dominada pelo Centrão que foi anabolizada justamente na onda do orçamento paralelo, parte dos recursos teve como destino empresas que pertencem ou estão intimamente ligadas a políticos, além de ter irrigado o caixa de prefeituras comandadas por cabos eleitorais dos deputados e senadores.”

Vittorio Medioli não foi o único da família a aparecer no esquema. A revista informa:

“Há mais negócios envolvendo a família Medioli. Dois sobrinhos do prefeito de Betim aparecem como donos da LLM Locação de Veículos, que recebeu 633,5 mil da Codevasf. A firma faz parte do conglomerado do qual o prefeito é proprietário. O dinheiro repassado à LLM saiu de dois repasses feitos à companhia a pedido do senador goiano Vanderlan Cardoso, que também é do PSD.”

Contrapontos publicados na reportagem:

“Procurada, a prefeitura de Betim afirmou, curiosamente, que não pode responder por assuntos privados de Medioli. Já a Deva Veículos e a LLM Locação de Veículos disseram que todas as transações com a Codevasf se deram “dentro das normas da legislação vigente”. Em resposta conjunta, as empresas disseram que não tinham conhecimento da origem dos recursos e que tiveram “margem de lucro inferior a 5%”. Crusoé indagou se Medioli tratou pessoalmente dos contratos com a Codevasf e se em algum momento ele conversou sobre o assunto com o “amigo” Bolsonaro, mas não houve resposta para essas perguntas.”

A revista conclui:

“Ao todo, a Deva venceu cinco concorrências para a venda de 245 caminhões e tratores para Codevasf. Até agora, segundo a própria empresa, 15 foram entregues.”

Também são citados na matéria o chefe da Casa Civil da Presidência da República, general Luiz Eduardo Ramos, o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, e o senador Carlos Viana.