Transilva inicia operações de transporte de importados da Ford sob ameaça do cartel

Frente a novas ameaças de incêndios criminosos, um forte aparato policial foi montado para garantir a segurança do transporte de veículos da marca Ford desembarcados no porto de Vitória (ES). Em 2016, a transportadora capixaba teve vários caminhões-cegonha incendiados quando assumiu o transporte dos veículos da marca Kia, como represália orquestrada pelo chamado cartel dos cegonheiros.

Polícia Militar, Polícia Rodoviária Federal e até mesmo a Polícia Federal foram acionadas para garantir a segurança das operações de transporte iniciadas nesta terça-feira (18) pela Transilva Logística. Os veículos da marca Ford chegaram por navio no porto de Vitória, oriundos de vários países. A empresa capixaba foi escolhida para realizar, inicialmente, o traslado do cais até o pátio Terca, localizado em Cariacica.

A operação desagradou integrantes do cartel que partiram para ameaças disparadas em redes sociais, em especial o aplicativo WahtsApp. Em áudio que chegou ao site Livre Concorrência com exclusividade, um empresário-cegonheiro manda a seguinte mensagem de voz:

“E aí…  beleza? Pois é, quem anda escoltada é ela [Transilva]. O Brazul tá doido, tão querendo botá fogo nos carros aí… Perdeu a puxada dos caboclos [carros da Ford] e deu ruim aqui… Tão querendo botar fogo aí, parece.”

O Sindicato dos Cegonheiros de São Paulo (Sinaceg) também foi citado por fazer ameaças em outro áudio. O Sintraveic-ES, alvo da Operação Pacto, emitiu nota dizendo que estuda “medidas administrativas e jurídicas” para garantir os direitos dos sindicalizados. Veja texto abaixo:

A nota é firmada por Waldelio de Carvalho Santos, presidente. Ele é um dos indiciados pela Polícia Federal no Inquérito Policial 277/2010, por participação na quadrilha acusada de incêndios criminosos em caminhões cegonha de empresas concorrentes.

O transporte dos veículos da marca Ford – até o fechamento da fábrica – era realizado pelas empresas Tegma, Transauto, Brazul, Transzero e Dacunha. Estas três últimas são de propriedade do político e empresário Vittorio Medioli. À exceção da Transauto, todas foram alvo de buscas e apreensões no âmbito da Operação Pacto, deflagrada pela Polícia Federal, Ministério Público de São Paulo (Gaeco) e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A Brazul foi citada no primeiro áudio recebido pelo site Livre Concorrência. No segundo, de acordo com outro empresário-cegonheiro, “o sindicato de São Paulo andou fazendo umas ameaças aí”.

O segundo áudio traz ameaça mais velada ainda e revela possíveis retaliações que teriam partido do Sindicato dos Cegonheiros de São Paulo. Cabe ressaltar que o Sinaceg, condenado por formação de cartel no setor de transportes de veículos novos, está proibido de operar em estados onde existam sindicatos regionais. O conteúdo remonta a ações do passado:

“Bom dia, do grupão aí, quase boa tarde já …. gargalhadas … realmente é isso aí … novas gargalhadas …. andaram fazendo umas ameaças.. é isso mesmo… e o homem (possivelmente o proprietário da Transilva) lá correu atrás com medo deles botá fogo nas cegonha que nem fizeram da vez passada… parece que o sindicato de São Paulo andou fazendo umas ameaças aí… um bom dia pros demais aí, um abraço.”

Pelo WahatsApp, empresários-cegonheiros também fazem afirmações comprovando o conluio existente entre transportadoras e sindicatos com a finalidade de manter o mercado fechado e impedir o ingresso de novos agentes. Mensagem revela:

“Fomos informados pelas empresas de logística que os carros da Ford estão sendo puxados do porto de Vitória para o pátio Terca em Cariacica. Porém, desse pátio em diante, a distribuição não muda nada. Estamos coletando maiores informações para repassar aos senhores.”

No texto, há indicativo de que as transportadoras acusadas de formação de cartel deverão continuar a operar na distribuição dos veículos da marca Ford para a rede de concessionárias em todo o país. A Transilva não quis se manifestar a respeito da operação.

A Transilva foi a responsável pela denúncia das práticas criminosas contra caminhões-cegonha, principalmente, encaminhada ao Ministério da Justiça, a qual resultou na deflagração da Operação Pacto, em 17 de outubro de 2019.