Testemunha do Gaeco paga dívida de meio milhão de reais antecipada após fazer acordo com o réu Vittorio Medioli

Em setembro de 2020, transportadora de propriedade de Afonso Rodrigues de Carvalho teve dois caminhões apreendidos por atraso no pagamento das prestações. Em abril deste ano, mesmo em plena pandemia, quitou à vista dívida antecipada que venceria em junho de 2024, no valor de R$ 521 mil.

Nada mau. Em plena pandemia, a empresa de Afonso Rodrigues de Carvalho – a Transportes Magayver – conseguiu um feito que parece inédito na dura economia brasileira. Quitou antecipadamente uma dívida de financiamento de dois caminhões Mercedes-Benz que venceriam em junho de 2024, numa operação que envolveu cerca de R$ 521 mil. O fato poderia ser considerado até certo ponto normal, se a mesma transportadora, em setembro de 2020, não tivesse sido alvo de busca e apreensão por parte do banco Mercedes-Benz por atraso no pagamento das prestações. Para liberar os dois “cavalinhos” – placas PRA8F9 e PRA8619 -, como os transportadores chamam na gíria, a Magayver Transportes contraiu empréstimo junto a empresa à qual estava agregada, a Transportes Gabardo, no valor de R$ 381 mil para colocar em dia o pagamento dos dois financiamentos.

A operação mostra que os negócios foram de vento em popa para a Transportes Magayver, mesmo diante da crise que atingiu, principalmente, as montadoras de veículos. Sete meses depois de ter os dois caminhões apreendidos por falta de pagamento, em abril deste ano, a empresa pagou à vista 76 prestações de R$ 6.862,06, referente aos dois financiamentos (38 parcelas de cada um). E tudo antecipado. O fato ocorreu cerca de 30 dias depois de Carvalho firmar acordo com o milionário político e empresário Vittorio Medioli, prefeito de Betim (MG) e proprietário do grupo Sada, um dos alvos da Operação Pacto, para pôr fim a uma queixa-crime.

Financiamentos no valor de mais de meio milhão de reais, com prestações que se estendiam até 2024, foram totalmente quitados após acordo com Vittorio Medioli.

Medioli é réu em ação penal movida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) – órgão do Ministério Público de São Paulo -, acusado, com outros executivos de transportadoras de veículos, de formação de cartel e de quadrilha. Na mesma ação, Carvalho, que combateu o chamado cartel dos cegonheiros por mais de 20 anos, aparece como testemunha do próprio Gaeco. Prestou depoimento em juízo, reafirmando as acusações contra Medioli, numa audiência tensa, ocorrida no Foro de Anápolis, em outubro de 2019.

Nesse depoimento, ao responder o questionamento feito pela representante do MP, sobre a conduta de Medioli, Carvalho afirmou:

“Na verdade o Vittorio Medioli não aparece nunca, mas é ele quem banca tudo. Ele manda os laranjas. Tem laranjas no Sinaceg, no sindicato de Minas Gerais, onde coopta todos, nas empresas. Mas a mim eles não compram porque detesto cartel e máfia.”

O “perdão” concedido por Medioli a Carvalho e ao advogado dele, Narciso Fernandes Barbosa, que concordaram com a “concessão de perdão”, foi homologado pela juíza Sandra Regina Nostre Marques, da 1ª Vara Criminal da comarca de São Bernardo do Campo (SP), no dia 29 de abril deste ano, em queixa-crime movida pelo político e empresário contra o ex-líder sindical. Aos autos, foi acostada uma Escritura Pública, avaliada pelas partes em R$ 1 milhão, na qual Carvalho apresenta retratação e passa a defender Medioli e toda a estrutura do cartel, alegando ter sido enganado por ter baixa escolaridade.

Questionado pelo site Livre Concorrência, Carvalho afirmou taxativamente:

“Quem te falou que vou operar em outra (transportadora de veículos), vendi os caminhões todos. Eu estou aposentado.”

Dias depois, Carvalho ameaçou:

“Se tu disser que ele (Medioli) me comprou, tu vai ter que provar. Agora, serviço ele (Medioli) vai me dar. Isso ele (Medioli) vai me dar.”

Já na última semana de abril, Carvalho postou em redes sociais, uma espécie de agradecimento a ex-colegas de profissão. E afirmou:

“Quem tem amigo (e não padrinho) não morre pagão, pois o Inácio (João dos Santos), o Ricardo (Rossetti) e o Eduardo (Allemann) me cederam cinco vagas no setor. Pararam cinco frotas deles pra eu colocar cinco caminhões pra trabalhar.”

O site Livre Concorrência fez um cruzamento de dados e encontrou uma triangulação societária envolvendo familiares de Carvalho, surgida cerca de 30 dias após o acordo com Medioli. Assegurando o direito ao contraditório, Carvalho foi contatado para responder algumas indagações visando a esclarecer o caso, mas o ex-líder sindical preferiu silenciar. Questionado sobre o acordo envolvendo réu e testemunha na ação penal, o Ministério Público de São Paulo não quis se manifestar. Argumentou que o processo “está sob segredo de Justiça”. Alegando sigilo sobre informações financeiras, a Transportes Gabardo não respondeu o questionamento a respeito do citado empréstimo.