Montadoras até tentam se livrar do cartel, mas quase sempre acabam se acovardando

Incêndios criminosos e bloqueio de fábricas fazem parte das retaliações deflagradas pelo cartel dos cegonheiros para desencorajar montadoras a contratar novas transportadoras. Em abril, a Ford desistiu repentinamente de concorrência aberta para selecionar novos prestadores de serviço. O cartel dos cegonheiros controla mais de 95% das cargas e causa um prejuízo superior a R$ 2 bilhões por ano, por conta de ágio de 40% aplicado ao frete. O rombo financeiro é integralmente repassado aos consumidores.

Mesmo sob intensa investigação da Polícia Federal, Cade e Gaeco/SP – no âmbito da Operação Pacto – o cartel dos cegonheiros segue exercendo poderes absolutos no transporte de veículos novos no país, desafiando as autoridades constituídas. A organização criminosa que comanda o setor, inclusive com o uso de violência, conseguiu interromper mais uma ação da indústria automobilística de tentar se livrar de prestadores de serviços vinculados a esquema envolvendo divisão de mercado, fixação artificial de preços e eliminação da concorrência. Agora foi a vez da Ford do Brasil se dobrar ao poder de sindicatos e grandes empresas que controlam os fretes realizados por caminhões-cegonha. A montadora que recentemente decidiu suspender a produção de veículos no país não está sozinha nesse recuo. Outras marcas também abortaram concorrência mediante ameaças do cartel.

A Ford abriu no final de março deste ano processo para selecionar novas transportadoras para distribuição nacional de veículos comercializados pela marca. A decisão de adiar o processo por tempo indeterminado foi anunciada abruptamente em abril, sob a alegação de alinhamento interno. A justificativa não passa de conversa mole para boi dormir. Nas redes sociais, membros do cartel já vinham criticando a concorrência aberta pela montadora e prometendo retaliações desde março. O processo era qualificado de “golpe da Ford.” Funcionários da Ford se negaram a prestar esclarecimentos ao site Livre Concorrência.

O duplo recuo da Volkswagen
Em 2017, a Volkswagen acovardou-se, mesmo depois de denunciar à Justiça como o cartel mantém as montadoras dominadas. A marca alemã enfrentou no Brasil uma greve ilegal de cegonheiros-empresários ligados Sinaceg. O movimento que bloqueou uma planta da montadora foi deflagrado, segundo petição da montadora enviada à Justiça de São Bernardo do Campo, pelas transportadoras Transauto, Tegma, Brazul, Transzero e Dacunha, essas três últimas de propriedade do grupo Sada – cujo dono é Vittorio Medioli. Houve pedido de liminar para a desobstrução dos acessos à fábrica, deferida pela Justiça.

Na petição, a VW afirmou que o cerco das empresas vinculadas ao cartel estavam impedindo a montadora de buscar melhores condições técnicas e preços mais competitivos para escoar a produção (frete cegonheiro). Alegou, inclusive, que os valores cobrados eram mais elevados e por isso a VW estava colocando em curso o chamado BID, que é a cotação de preços para a realização do transporte dos seus veículos, o que revoltou os atuais transportadores.

Menos de 24 horas depois de a Justiça conceder a liminar determinando a desobstrução da unidade fabril localizada em São Bernardo do Campo, a própria montadora anunciou acordo com as transportadoras denunciadas, cancelando o processo do BID. A decisão foi considerada um “golpe branco no setor”.

Dois anos antes, em 2015, a Volkswagen também recuou, após cegonheiros-empresários paralisarem a produção da montadora em protesto contra seleção de novos prestadores de serviço.

Peugeot e Citröen também se acovardaram
Em 2018, os cegonheiros-empresários que atendem a Groupe PSA, dono das marcas Peugeot e Citröen, não aceitaram perder ou dividir cargas com outra empresa recém-contratada pela Gefco, operadora logística do grupo francês. Durante dois dias (19 e 20 de janeiro), cegonheiros autônomos mobilizaram-se em frente à fábrica localizada no município de Porto Real, no Estado do Rio de Janeiro.

Por trás dos manifestantes que reclamavam da ameaça de ficar sem trabalho estavam os interesses de três grandes transportadoras ligadas ao cartel dos cegonheiros: Sada, Brazul e Autoport. O transporte de veículos foi retomado dia 20. A montadora não aceitou falar sobre o acordo.

Nissan e Renault temem retaliação do cartel
Em 2019, a Nissan do Brasil Automóveis (grupo econômico da Renault) revelou ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) que o mercado de transporte de veículos novos no Brasil é “extremamente fechado e organizado”. Por conta disso, a montadora “não costuma realizar a contratação de outros fornecedores” fora das empresas que constituem o chamado cartel dos cegonheiros.

No documento enviado ao MP-RJ, cujo conteúdo o site Livre Concorrência teve acesso com exclusividade, a Nissan receia que uma possível troca de transportadora possa deflagrar prejuízos às cargas e aos trabalhadores da marca. Lemelle explicou o que impede a abertura do mercado:

“Retaliação por parte dos atuais transportadores, uma greve com retenção de carga da empresa. No mais, também existe a possibilidade de incorrer em riscos de segurança com relação aos produtos e pessoas que trabalham na Nissan.”

Caoa-Chery não recuou
Em 2018, o entorno da fábrica da Caoa-Chery, em Jacareí (SP), virou palco de atos de vandalismo e até tentaliva de homicídio, após a empresa Transportes Gabardo, com matriz no Rio Grande do Sul, vencer concorrência aberta pela montadora para escoar os veículos produzidos pela marca. Transportadoras ligadas ao cartel dos cegonheiros perderam a disputa. Apesar da pressão, a montadora não recuou. Os crimes cometidos em Jacareí ainda estão sendo investigados pelo 2º Distrito Policial da cidade. As retaliações não se limitaram à cidade paulista. Vários caminhões da operadora gaúcha foram incendiados em outros estados.

Kia Motors também resistiu
Em 2016, a Transilva Log que transportava parte dos veículos Kia ganhou cotação de preços e conquistou o direito a escoar a totalidade dos veículos importados. A represália foi imediata. Vários caminhões-cegonha foram incendiados criminosamente. O escritório central da Kia Motors, localizado no município de Itu (SP), foi vítima de explosões com coquetéis-molotovs. Ninguém foi identificado pela Polícia. Para se proteger, os advogados da Transilva chegaram a pedir a adoção de medidas cautelares urgentes contra 20 cegonheiros-empresários e a prisão de pelo menos sete deles. A petição foi encaminhada ao Ministério Público Federal.

Antes disso, em 2011, nove caminhões da Transilva Log já haviam sido incendiados criminosamente no pátio da sede da transportadora, em Vitória, no Espírito Santo. Na ocasião, a empresa recém-começara a operar para a Kia.

Corporação do atraso
Em 7 de agosto de 1997, o colunista de economia da Folha de São Paulo denunciou um locaute deflagrado por donos de caminhões-cegonha para impedir o desenvolvimento de um novo modal. o jornalista Luiz Nassif abordou a decisão da Fiat de começar a transportar para o Nordeste 800 veículos por semana em navios e a reação do cartel que controla o transporte de veículos novos. O novo modal reduziria o preço do frete em 50%.

A novidade acabou naufragando. O cartel dos cegonheiros se mobilizou e eliminou a possibilidade de o consumidor nordestino pagar menos por veículos novos.

Nassif contou como os cegonheiros reagiram:

“A reação dos donos de caminhão foi um locaute nacional. Não queriam nem aumento de frete, mas apenas impedir a ampliação da cabotagem. Com a pressão, também conseguiram que a Volskwagen, Ford e General Motors reduzissem o transporte de cabotagem para 400 veículos semanais.”

O jornalista qualificou o cartel de corporação do atraso:

“Os cegonheiros comportam-se como a corporação típica que, estando frente a mudanças inevitáveis, tentam conservar a ferro e fogo o antigo status quo. Melhor fariam entendendo, se adaptando e defendendo seus interesses dentro das regras dos novos tempos.”

GM só contratou empresa fora do cartel depois de ser obrigada por decisão da Justiça
Em 2003, a General Motors foi obrigada por determinação liminar a contratar transportadora não alinhada ao cartel dos cegonheiros. A liminar, em vigor até hoje, visava à abertura do mercado no setor. A montadora e o seu diretor de assuntos institucionais Luiz Moan Yabiku Júnior, ao lado da ANTV e Sinaceg, foram condenados por participação ativa na formação de cartel no transporte de veículos novos. A sentença foi confirmada por unanimidade em segunda instância, em julgamento realizado pela 4ª Turma do Tribunal Federal da 4ª Região (TRF-4).