Transportadoras e sindicato patronal mantêm conluio. Ignoram ação da PF, Gaeco e Cade

Empresários-cegonheiros trocam farpas pelo aplicativo WhatsApp sobre suposta venda do serviço de transporte da Ford. Teor das conversas confirma que Sintraveic-ES continua dominando as cargas das transportadoras, com a conivência das montadoras.

Sem a menor cerimônia, empresários-cegonheiros ligados aos sindicatos patronais sediados no Espírito Santo e São Paulo trocam farpas pelo aplicativo WhatsApp. Em áudios recebidos com exclusividade pelo site LIvre Concorrência, Mauro Marcelino Simeão, mais conhecido como “Maurinho”, acusa um diretor do Sindicato dos Cegonheiros de São Paulo (Sinaceg), José Donisete da Silva, o Mexicano, de ter “vendido o serviço da Ford, traindo a categoria”, para a transportadora capixaba Transilva. O diálogo – repleto de palavras de baixo calão, e por isso impublicáveis – chama a atenção para o controle absoluto que os sindicatos patronais detêm sobre as cargas que, em tese, deveriam ser comandadas pelas chamadas operadoras de logística. É a comprovação do conluio entre os alvos da Operação Pacto que continuam agindo, ignorando a ação de policiais federais, promotores do Gaeco e especialistas do Cade. Na foto de abertura, Maurinho (de camisa preta) e Mexicano (paletó preto) aparecem em evento realizado em Espírito Santo.

Outros registros apontam para o controle de cargas por sindicatos patronais. A Brazul – controlada pelo grupo Sada, de propriedade de Vittorio Medioli – apesar de não ser contratada pela Hyundai Brasil ou pela Glovis, operadora de logística da montadora sediada em Piracicaba (SP), transporta veículos da marca. Essas cargas saem da cota da Tegma. A propósito, Brazul e Tegma foram alvos da Operação Pacto. A ação da Polícia Federal, em parceria com o Cade e o Gaeco/SP, foi deflagrada em outubro de 2019 para combater o cartel dos cegonheiros.

Alam Ramos, conhecido como “Alam Pancada”, explica que “há sobra Hyundai” e seria destinada à frota 82153. Em outra mensagem também pelo aplicativo WhatsApp, integrante do Sintraveic-ES argumenta que quando uma “carga é ruim”, com frete considerado baixo, deve ser passada para outra frota, sem que o empresário-cegonheiro responsável pela frota possa opinar. “Essa é a regra”, justifica na mensagem, o sindicalista.

Glovis e Hyundai não quiseram responder aos questionamentos do site Livre Concorrência, numa demonstração de conivência com a situação ou medo.