Alvo da Operação Pacto, sindicato capixaba diz à Justiça que vai arrecadar R$ 12 milhões dos associados

Expressivo valor que será administrado pelo Sintraveic-ES já está sendo descontado pela Tegma Gestão Logística e será repassado a advogados para defender associados acusados de incêndios criminosos em caminhões-cegonha de empresas concorrentes do cartel dos cegonheiros. Eles também atuarão em outros processos e investigações.

A deflagração da Operação Pacto – ocorrida em outubro de 2019, quando policiais federais vasculharam, entre outras empresas, a sede do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo (Sintraveic-ES) – não intimidou a entidade patronal. Pelo contrário: incentivou a direção a contratar, a peso de ouro dois advogados para sair em defesa não só do próprio sindicato, como também de vários associados, incluindo o presidente Waldelio de Carvalho Santos, acusados em inquérito da Polícia Federal de fazerem parte de uma quadrilha que incendeia criminosamente caminhões-cegonha de transportadoras de veículos concorrentes às do chamado cartel dos cegonheiros. Nada menos do que R$ 12 milhões serão retirados do bolso dos empresários-cegonheiros associados para ser entregues aos advogados Claudio Alba e Rodrigo Ramos. Nesse mesmo inquérito, o proprietário do grupo Sada, Vittorio Medioli, é apontado pela Polícia Federal como o “chefe da quadrilha investigada.

No final da semana passada, o site Livre Concorrência teve acesso, com exclusividade, a documento anexado aos autos da ação movida pela Transtavella & Biaconi – empresa associada à entidade – contra a Tegma Gestão Logística, também alvo da Operação Pacto. Apesar de não constar como parte da ação, o sindicato protocolou petição. Afirma que os associados concordaram em descontar 10% do faturamento bruto para fazer frente aos gastos do sindicato.

Chegou a anexar algumas autorizações do que chama de “frotistas”, mas alguns detalhes chamam a atenção na petição sindical. Um dos exemplos é a cópia da ata de uma reunião na qual consta a data da realização como dois (2) de julho de 2020, quando teria ocorrido a concordância “da maioria”. Em 27 de novembro do mesmo ano, no entanto, o Sintraveic-ES divulgou uma “nota de repúdio” contra os que se opunham ao desconto, identificando a mesma reunião em data diferente, 4 de julho. Mais adiante, a mesma ata revela que uma das missões do dr. Claudio Alba seria “notificar” a Brazul (outro alvo da Operação Pacto, de propriedade do grupo Sada).

Para alguns associados que falaram ao site Livre Concorrência, pedindo para não serem identificados, a expressão “notificar” significa pressionar a empresa Brazul para que também passe a descontar os 10% do faturamento bruto das frotas que estão agregadas a ela, sob o comando do Sintraveic-ES. Há descontentamento entre um grupo de empresários-cegonheiros, principalmente quanto ao valor a ser arrecadado e repassado aos advogados. “Advogado caro esse, parece do PT”, (Partido dos Trabalhadores) chegou a ironizar José Donizete da Silva, diretor do Sinaceg, mais conhecido como Mexicano, proprietário da Mexicano Transportes, que mesmo assim, também autorizou o desconto ao Sintraveic-ES.

Das autorizações assinadas, o site Livre Concorrência teve acesso à do presidente do sindicato dos cegonheiros do Rio de Janeiro, Jardel de Castro. A empresa dele está sediada em São Paulo.

Uma planilha foi entregue pelo Sintraveic-ES ao Judiciário capixaba. No documento, a entidade patronal ressalta que, quando da elaboração da lista, pelo menos 10 empresas ainda não haviam assinado as autorizações de desconto. Apesar de sete delas não terem assinado autorização, a Tegma estava aplicando os descontos. De acordo com a listagem entregue pelo sindicato, os associados repassaram, durante os meses de dezembro do ano passado e fevereiro deste ano, mais de R$ 145 mil aos dois advogados. Procurada pelo site Livre Concorrência, a Tegma não quis se manifestar sobre o assunto.

Operação Pacto
Tegma, Sintraveic-ES, Transcar e empresas do grupo Sada, incluindo a Brazul, foram alvos da Operação Pacto, deflagrada em 17 de outubro de 2019. Policiais federais e agentes do Cade (foto de abertura), com a participação do Gaeco (MP-SP), recolheram quase uma centena de documentos. A operação foi gestada a partir da denúncia feita pela Transilva Logística ao então ministro da Justiça Alexandre de Moraes, que solicitou a investigação.

No Cade, Tegma, Sintraveic-ES, Brazul e Transcar aparecem como representadas no inquérito administrativo que apura eventuais infrações à ordem econômica – formação de cartel. O sindicato patronal capixaba denunciou as empresas por oferecerem benesses (vagas de transportador) a integrantes do sindicato para que promovessem manifestações violentas contra a concorrente Transilva. O documento foi usado como moeda de barganha para a conquista das vagas de transportadores, mas a denúncia acabou chegando à autoridade antitruste que deu início às investigações em 2016.