Mesmo fechando fábricas, Ford mantém conluio com transportadoras que causa prejuízo milionário a consumidores

A Ford, que assumiu a condição de importadora depois de fechar fábricas no país, decidiu manter o conluio com as transportadoras acusadas de formação de cartel. Os veículos vindos de vários países continuarão sendo entregues à rede de concessionárias pelo mesmo grupo – depois do cancelamento do BID anunciado nos primeiros dias de abril deste ano. Prejuízos continuarão sendo repassados aos compradores da marca.

Ao deflagrar a Operação Pacto, em 17 de outubro de 2019, policiais federais, juntos com o Ministério Público de São Paulo (Gaeco) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), chegaram a revelar que as montadoras estariam na condição de vítimas do chamado cartel dos cegonheiros. No entanto, a Ford – a exemplo da Volkswagen em 2017 – deu mostras de que a expressiva maioria das montadoras instaladas no país age em conluio com a organização criminosa que controla com mãos de ferro o setor de transporte de veículos novos.

Dois dias depois de comunicar a algumas transportadoras a abertura do processo de cotação de preços (BID), a Ford avisou sobre a desistência da intenção, sob a alegação de “alinhamento interno”. Agora importadora, a Ford segue sem se incomodar com o prejuízo que a falta de concorrência no setor causa aos compradores da própria marca. Certamente porque o custo é repassado integralmente aos consumidores. Nos últimos quatro anos, foram quase R$ 1 bilhão, por conta do ágio de até 40%, segundo apurou a mesma Operação Pacto.

Em quatro anos, a Ford pagou ao cartel R$ 2,3 bilhões em fretes para distribuir veículos destinados ao mercado interno. Desse total, R$ 947,9 milhões referem-se à cobrança de ágio decorrente da falta de concorrência no setor. O valor é integralmente repassado aos consumidores. 

Nesta semana, o site Livre Concorrência teve acesso com exclusividade a uma mensagem distribuída via aplicativo WhastApp e atribuída à Tegma, um dos alvos da Operação Pacto, informando sobre o reinício das atividades de transporte dos carros importados pela Ford para a rede de concessionários. “O primeiro lote de 110 veículos foi liberado para todas” as transportadoras – Transauto, Tegma, Brazul, Transzero e Dacunha, as três últimas de propriedade do grupo Sada.

O transporte começou a ser realizado no pátio da Terca, em Cariacica-ES. Do porto de Vitória-ES até esse local, na chamada “operação de porto”, o transporte foi realizado pela Transilva Logística (foto de abertura). Foi necessário escolta policial, porque a empresa capixaba foi autora da denúncia contra o cartel ao então ministro da Justiça Alexandre de Moraes, o que originou as investigações que culminaram na Operação Pacto. Transilva teve mais de uma dezena de caminhões-cegonha incendiados criminosamente, quando conquistou o transporte dos veículos da Kia.

Prejuízos mantidos
O conluio da Ford com o chamado cartel dos cegonheiros causou prejuízo de R$ 947,9 milhões aos compradores da marca nos últimos quatro anos. É que a falta de concorrência nesse setor impõe sobrepreço de até 40%, segundo não só a Polícia Federal, como também o Ministério Público Federal – que estimava em 25% esse prejuízo, antes da deflagração da Operação Pacto. Em 2017, a então montadora pagou só de ágio às quatro transportadoras R$ 248,3 milhões. No ano seguinte, esse valor foi de R$ 255,9 milhões. Em 2019, o mesmo ágio alcançou a marca dos R$ 253,15 milhões, enquanto que em 2020 – auge da pandemia do coronavírus – o montante repassado chegou aos R$ 190,2 milhões. Nesses últimos quatro anos, a Ford transferiu às transportadoras, a título de frete, nada menos do que R$ 2,3 bilhões. Somando o ágio cobrado dos consumidores e repassados ao cartel dos cegonheiros, as montadoras que utilizam o mesmo sistema causam prejuízo superior a R$ 2 bilhões por ano.