JSL anuncia intenção de compra da Tegma, alvo da Operação Pacto

Menos de um ano depois de avançar sobre as cargas do chamado cartel dos cegonheiros – ao comprar a transportadora Transmoreno por R$ 310 milhões, em agosto de 2020 – a Júlio Simões Logística volta a abalar as estruturas do transporte de veículos novos no país com proposta de compra da Tegma.

No início deste mês, a JSL revelou ao mercado, por meio de fato relevante divulgado pela Simpar, da qual é subsidiária, a intenção de adquirir a Tegma Gestão Logística – segunda maior transportadora no segmento e alvo da Operação Pacto.

A fusão envolveria o pagamento de R$ 989 milhões em dinheiro e mais a entrega de R$ 49,4 milhões emitidos pela JSL. Na proposta, a Tegma foi avaliada em R$ 1,75 bilhão. Os acionistas da transportadora têm até 16 de julho para decidir se aceitam a proposta de combinação de negócios.

A intenção de criar uma nova gigante em logística rodoviária no país ocorre no momento em que a transportadora de São Bernardo do Campo se encontra no olho do furacão causado pela deflagração da primeira fase ostensiva da Operação Pacto. Em outubro de 2019, Polícia Federal, Cade e Gaeco/SP fizeram uma devassa nas sedes de três transportadoras e um sindicado ligados ao cartel dos cegonheiros.

Os mandados de buscas e apreensões, com autorização judicial, atingiram a Tegma. Segundo conclusões das investigações, pelo menos quatro grandes empresas e um sindicato de cegonheiros (o do Espírito Santo) impedem o ingresso de novos transportadores, transformando montadoras e concessionárias de veículos em reféns. Os investigadores também constataram superfaturamento de até 40% nos fretes.

Em entrevista coletiva concedida à época, delegados da Polícia Federal e a promotora Cintia Marangoni revelaram que o objetivo, a partir dos documentos apreendidos nas sedes das empresas investigadas, é identificar com precisão quais as pessoas físicas tiveram participação efetiva no exercício das atividades ilícitas do cartel dos cegonheiros.

Pelo menos 30 pessoas estão na lista dos policiais federais, dos integrantes do Gaeco e dos servidores do Cade que estão atuando na força-tarefa. Concluída a investigação, será iniciado o ajuizamento de ação penal para responsabilizar os eventuais culpados – informaram as autoridades.

Executivos da Tegma são réus em processo penal
Além das conclusões da Operação Pacto, na qual é apontada como integrante da organização criminosa que controla o setor, a Tegma tem seis executivos processados em ação penal. Eles respondem por por abuso de poder econômico, dominação de mercado, eliminação total ou parcial de concorrência, fixação artificial de preços, formação de cartel e associação criminosa. A denúncia tem como autor o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Bernardo do Campo (SP).

Vale recordar
As relações comerciais da Júlio Simões com a Tegma Gestão Logística não são novas. A JSL comprou a Transportadora Transmoreno em 2020, responsável por parte do escoamento da produção das montadoras Renault e Nissan. Antes, a Tegma adquiriu o controle acionário da CatLog, operadora logística da marca Renault, mesmo grupo econômico da Nissan.

Júlio Simões e executivos da Tegma já possuem relações comerciais há mais tempo. Em 2013, por R$ 65 milhões, a JSL adquiriu a Movida Locação de Veículos, de propriedade de dois executivos da Tegma.

Em 2005, a General Motors do Brasil (GMB) contratou – obrigada por ordem judicial – a Júlio Simões (JSL), de Mogi das Cruzes (SP), para escoar inicialmente 10% dos veículos produzidos em Gravataí-RS e 1% dos fabricados nas demais plantas. A Tegma é a principal transportadora da GM.

Questionada pelo site Livre Concorrência sobre o envolvimento da Tegma na Operação Pacto e a respeito de executivos da mesma transportadora serem réus em ação penal, acusados de formação de cartel e de quadrilha, a Assessoria de Imprensa da JSL não se manifestou até o fechamento da edição.