Jornalista recusa assessoria milionária para aliar-se ao cartel, atrelada a acordo com Vittorio Medioli

Proposta milionária previa assessoria de imprensa para a Associação Nacional dos Transportadores Cegonheiros (Antransceg) – entidade recém-criada pelo ex-líder sindical Afonso Rodrigues de Carvalho – e a promessa de concessão de duas vagas para transportador. Tudo isso, e muito mais, desde que o jornalista e editor do site Livre Concorrência aceitasse acordo com o proprietário do grupo Sada, Vittorio Medioli, para acabar com ações judiciais. A proposta do cartel foi recusada, a exemplo do que ocorreu em 2015.

O jornalista Ivens Carús, editor do site Livre Concorrência, recusou fazer acordo com o político e empresário Vittorio Medioli. A oferta era para pôr fim às queixas-crime, ações indenizatórias e uma queixa na Polícia Civil de Betim (MG), todas chanceladas pelo proprietário do grupo Sada, que teve algumas empresas vasculhadas por policiais federais no âmbito da Operação Pacto. Tudo foi proposto pelo ex-líder sindical Afonso Rodrigues de Carvalho. O acordo seria condição indispensável para garantir a assessoria de imprensa à Antransceg e, segundo Carvalho, serviria para manter “a paz no setor” de transporte de veículos novos.

O ex-líder sindical ofereceu ainda, ao jornalista, a concessão de duas vagas para transportador, num período de até um ano. Magayver justificou o prazo:

“Serão [nesse período] abertas novas vagas [para o cartel], quando a Gabardo perderá as cargas da Hyundai. Se tu não sabe, a gente te ajuda a administrar.”

Ele também mencionou que já havia apresentado denúncia contra a Gabardo na Hyundai de Piracicaba:

“Eles vão perder as cargas.”

As vagas prometidas, segundo Carvalho, poderiam ser vendidas para “os próprios cegonheiros”, acrescentou o interlocutor de Medioli. Dependendo da linha, cada vaga pode valer até R$ 2 milhões.   

Por meio de conversas no aplicativo WhatsApp, enquanto o ex-líder sindical afirmava que buscava a “paz no setor” e que iria continuar trabalhando contra o que passou a classificar de “inimigo número 1” do setor, referindo-se ao empresário Sérgio Mário Gabardo, Carús reafirmava: 

“Se o Medioli quer retirar as ações contra mim, basta peticionar nos autos. Acordo com ele, eu não faço.”

O editor do site foi mais enfático: 

“Medioli não tem dinheiro suficiente para comprar meu caráter.”

Carvalho argumentou que a intenção era aproximar as partes para acabar com o conflito judicial. Para isso, o editor do site Livre Concorrência deveria concordar em assinar um documento, no qual “cada um pare de falar mal do outro”. O editor ressaltou:

“Nem eu nem o site Livre Concorrência falam mal de qualquer pessoa. Noticiamos fatos.”

Na escritura pública, avaliada em R$ 1 milhão – que consolidou acordo com Medioli -, Carvalho assegurou que fizera denúncias contra o cartel por conta da baixa escolaridade, o que o impedia de ter amplo conhecimento dos fatos. Agora, na última mensagem enviada a Carús, Carvalho, mesmo depois de assumir a baixa escolaridade, finalizou:

“Estou denunciando tudo que sei do mesmo (Sérgio Gabardo), doa a quem tiver que doer. Eu, até o momento não tenho nada contra você.” 

Medioli e suas empresas movem 10 queixas-crime e duas ações indenizatórias contra o editor do site. Duas já tiveram trânsito em julgado desfavorável ao político e empresário. As outras continuam em tramitação. Em pelo menos seis, já há manifestação do Ministério Público pelo arquivamento. Além disso, segundo fontes do site Livre Concorrência, na Polícia Civil de Betim, há um inquérito policial em andamento, baseado em notícia crime chancelada por Medioli.  

Carvalho, que por mais de 20 anos denunciou as nefastas ações do chamado cartel dos cegonheiros, passou a defender pessoas, entidades e transportadoras acusadas de formação de cartel pelo Ministério Público Federal, Gaeco de São Bernardo do Campo, Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e Polícia Federal. A mudança de comportamento aconteceu no primeiro trimestre deste ano, depois que Medioli e Carvalho (foto de abertura) entabularam acordo em queixa-crime movida pelo político e empresário mineiro contra o ex-líder sindical. Carvalho é testemunha do Ministério Público de São Paulo, na mesma ação penal em que Medioli é réu, acusado de formação de cartel e de quadrilha.

Até o fechamento da edição, o empresário Sérgio Mario Gabardo não se manifestou, apesar de procurados por correspondência eletrônica. A Hyundai Brasil também não retornou à solicitação feita pelo site Livre Concorrência. Já o político e empresário Vittorio Medioli, manifestou-se por meio de correspondência eletrônica.

Reedição
O recente episódio reedita o caso ocorrido em 2015, quando o então vice-presidente do grupo Sada, Luiz Alberto de Castro Tito, ofereceu a Carús R$ 1,5 milhão para prestar depoimento fraudulento. O jornalista deveria afirmar que tudo o que publicava era a pedido de concorrentes das empresas Sada e Tegma. Tito indicou como negociador um advogado “da confiança do grupo”, chamado Frederick Wassef. Ele ganhou notoriedade nacional durante o governo do presidente Jair Bolsonaro. Segundo Wassef, o dinheiro seria entregue em “uma mala”. Todo o procedimento foi levado ao Gaeco e ao Ministério Público Federal de São Bernardo do Campo (SP), onde está há seis anos. O MP informa que o procedimento encontra-se sob sigilo.

Nota da Redação
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