Ágio de cartel é seis vezes maior que faturamento das transportadoras independentes

Sobrepreço cobrado pelo cartel dos cegonheiros somou nos seis primeiros meses deste ano R$ 1,6 bilhão. Transportadoras independentes faturaram R$ 255,3 milhões. Montante recebido pela organização criminosa que controla o setor soma 4,1 bilhões – ou R$ 3,8 bilhões a mais do que as empresas que não se envolvem com o esquema marcado pela divisão de mercado, fixação artificial de preços e eliminação da concorrência, segundo comprovou a Operação Pacto.

Ágio de até 40% no valor do frete cobrado pelo cartel dos cegonheiros é seis vezes maior que o faturamento bruto das transportadoras independentes registrado nos seis primeiros meses de 2021, ainda sob os efeitos da pandemia. Em termos porcentuais, o sobrepreço exigido pela organização criminosa que controla com mãos de ferro o transporte de veículos novos no país soma R$ 1,6 bilhão (cifra 86% maior que a da concorrência). O montante é 633% maior que o total recebido pelas empresas que não integram o esquema investigado pela Polícia Federal, Cade e Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado). Em dinheiro, o ágio é R$ 1,3 bilhão superior aos R$ 255,3 milhões pagos pelas montadoras às transportadoras independentes. Se for considerado o número de veículos transportados no primeiro semestre de 2021, o cartel dos cegonheiros detém 91,3% das cargas.

O cartel dos cegonheiros já foi condenado na Justiça Federal do Rio Grande do Sul. Existe e está sob nova investigação. As duas maiores transportadoras desse esquema (Tegma e grupo Sada) que envolve divisão de mercado, fixação artificial de preços e eliminação da concorrência tiveram as sedes vasculhadas em outubro de 2019 por uma força-tarefa da Polícia Federal, Gaeco e Cade.

O poder do cartel sobre o setor ainda é muito maior que os números acima revelam. Se for levado em conta o valor integral repassado às transportadoras que transformam montadoras em reféns – a Polícia Federal ainda não identificou possível conivência -, a diferença sobre o total recebido pelas transportadoras independentes sobe para R$ 3,8 bilhões, de um total de R$ 4,1 bilhões pagos por fretes (94%). Sob esse enfoque, o cartel recebe das montadoras 16 vezes mais que as transportadoras independentes. Em termos percentuais, a diferença é de 1.611%.

Os valores referem-se a venda de 23 marcas no mercado interno nos seis primeiros meses deste ano. Os dados baseiam-se no número de automóveis e comerciais leves emplacados no período, divulgado oficialmente pela Fenabrave. A equação leva em conta o preço médio de venda de cada modelo de veículo, o custo do frete sobre o valor total dos veículos e o ágio de 40%, conforme conclusão da Polícia Federal no âmbito da Operação Pacto.