Vittorio Medioli usa empresa para comprar caminhões de testemunha do MP e espionar editor de site

A concessionária Deva Veículos, de Betim (MG) – cidade governada por Vittorio Medioli – adquiriu pelo menos dois caminhões utilizados pelo ex-líder sindical Afonso Rodrigues de Carvalho, após acordo em queixa-crime movida pelo político e empresário. A rede de concessionárias Iveco é de propriedade do grupo Sada e tem Medioli como sócio administrador. Inexplicavelmente, a Deva também faz constantes pesquisas no banco de dados da Serasa, sobre a situação do CPF do editor do site Livre Concorrência.

O acordo feito entre Vittorio Medioli e Afonso Rodrigues de Carvalho em queixa-crime movida pelo político e empresário contra o ex-líder sindical extrapolou o campo jurídico e foi parar no econômico. Medioli é réu em ação penal movida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), acusado de formação de cartel e de quadrilha no setor de transporte de veículos novos – junto com outros executivos do grupo Sada e da Tegma Gestão Logística. Rodrigues é testemunha do Gaeco na mesma ação que tramita na comarca de São Bernardo do Campo (SP). A relação entre réu e testemunha em ações penais tem ressalva segundo o Artigo 343 do Código Penal. Após o “perdão” concedido por Medioli, dois caminhões – PRA8619 (imagem 1) e PRA8F99 (imagem 2) – de Rodrigues foram parar na concessionária de Medioli localizada em Betim (MG). A testemunha do Ministério Público também conquistou vagas de transportador nas empresas que acusou de formação de cartel nos últimos 20 anos. Sem autorização, Medioli também usou a Deva Veículos para espionar comercialmente o editor do site Livre Concorrência, jornalista Ivens Carús.

Após a celebração do acordo na queixa-crime, que envolveu uma escritura pública firmada por Rodrigues, a qual foi avaliada pelas partes em R$ 1 milhão, o ex-líder sindical que por mais de 20 anos fez dezenas de denúncias contra a organização criminosa que controla com mãos de ferro o setor de transporte de veículos novos passou a negar os crimes atribuídos ao cartel. Após assinar a escritura, conquistou cinco vagas de transportador, quitou antecipadamente financiamentos de dois caminhões que foram alvo de busca e apreensão por parte do banco Mercedes-Benz – numa operação que envolveu mais de R$ 500 mil – e os vendeu para a Deva, empresa de Medioli. As transações são confirmadas pelos documentos abaixo. Rodrigues justifica como origem dos recursos a venda de oito caminhões, o que lhe teria rendido R$ 2,3 milhões.

Imagem 1
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Cerca de um mês após o acordo com Medioli surgiu a empresa Transrdc, de propriedade da cunhada de Rodrigues. Consulta aos arquivos da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) revela que a empresa tem registrado vários caminhões da Deken Transportes (do filho e da mulher de Rodrigues), conforme mostra documento abaixo.

Espionagem
As notícias veiculadas pelo site Livre Concorrência, especialmente as que envolvem o setor de transporte de veículos novos, despertou a indignação do político e empresário Vittorio Medioli. O ajuizamento de quase uma dezena de queixas-crime e três ações de indenização, todas sem decisão favorável à Medioli e suas empresas até o momento, levou o proprietário do grupo Sada – apontado em inquérito da Polícia Federal como o “chefe da quadrilha investigada” e tendo suas empresas de transporte vasculhada na Operação Pacto – a registrar notícia crime na Polícia Civil de Betim, conforme correspondência eletrônica enviada pelo próprio Medioli ao editor do site.

No final de julho deste ano, um novo fato veio à tona. Medioli usou a empresa Deva Veículos, de sua propriedade, para espionar questões comerciais do editor do site, jornalista Ivens Carús. Nos últimos tempos, pelo menos sete consultas ao banco de dados da Serasa no CPF de Carús foram identificadas em relatório de consultas, oriundas da Deva Veículos. A mais recente, ocorreu em 27 de julho deste ano, sem que houvesse qualquer interesse de Carús na aquisição de bens ou serviços da concessionária da marca Iveco.