Das 20 marcas que mais vendem veículos no Brasil, Sada e Tegma atendem 18

Alvos da Operação Pacto dominam o transporte de veículos novos no país. Investigação coordenada pela Polícia Federal, em parceria com Gaeco de São Bernardo do Campo e Cade, apurou e confirmou crimes praticados no setor. A supremacia dos grupos Tegma e Sada é evidente. A equipe de reportagem do site Livre Concorrência identificou as empresas vinculadas ao cartel dos cegonheiros que transportam os automóveis zero-quilômetro mais vendidos no mercado interno.

Os crimes praticados pelo cartel dos cegonheiros foram recentemente investigados e novamente confirmados. Por mais de um ano, policiais federais, promotores do Ministério Público do Estado de São Paulo (Gaeco de São Bernardo do Campo) e técnicos do Cade reuniram evidências de fixação artificial de preços, divisão de mercado e eliminação da concorrência – inclusive com o uso de violência. A primeira fase ostensiva dessa investigação batizada de Operação Pacto foi deflagrada em 17 de outubro de 2019. Foram cumpridos, com autorização judicial, mandados de buscas e apreensões. Desde então, os documentos apreendidos nas sedes dos grupos Tegma e Sada (São Paulo e Minas Gerais) estão sob análise. Também foi vasculhado o escritório da transportadora Transcar (Bahia), empresa de menor porte e o Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo, o Sintraveic-ES. Vale ressaltar que Sada e Tegma são os dois maiores grupos econômicos que atuam no transporte de veículos novos até as redes de concessionários de cada marca. Das 20 montadoras que mais vendem no mercado interno, Tegma e Sada prestam serviços para 18. Apenas Kia (importadora) e Caoa-Chery contratam transportadoras independentes – aquelas não alinhadas ao cartel.

Sada e Tegma não dividem apenas as cargas da líder de vendas FCA-Fiat-Jeep, conforme comprova foto de abertura. Os dois grupos prestam serviços juntos para outras oito montadoras: Toyota, GM, Ford, Mitsubish, Renault, Volkswagen, Nissan, Peugeot e Citroën. O grupo Sada, cujo proprietário é o político e empresário Vittorio Medioli, reúne, além da Sada, as transportadoras Transzero, Dacunha e Brazul. Vale ressaltar que Medioli, em outro inquérito (277/2010) da Polícia Federal, é apontado como o chefe da organização criminosa investigada que controla o setor.

As montadoras Volkswagen, GM e Ford apresentam uma curiosidade. Todas são clientes das mesmas transportadoras: Tegma, Transauto, Brazul, Transzero e Dacunha (estas três últimas do grupo Sada). Por ordem da Justiça Federal do Rio Grande do Sul, a GM contratou a Júlio Simões para escoar 15% da produção, mas esses veículos não são entregues à rede de concessionárias.

As empresas do grupo Sada prestam ainda serviço com exclusividade para as marcas Jaguar, Land Rover e Audi. A Tegma explora sozinha os fretes das montadoras BMW e Volvo.

Só no primeiro semestre de 2021, as montadoras repassaram ao cartel dos cegonheiros R$ 4,1 bilhões, dos quais R$ 1,6 bilhão referem-se a ágio cobrado da indústria e repassado integralmente ao consumidor.


Operação Pacto
A Operação Pacto confirmou a existência do cartel dos cegonheiros. Também apontou com firmeza que a organização criminosa que controla o setor é formada por grandes empresas e atua em todo o território nacional, em conluio com sindicato de cegonheiros. Entre as ações criminosas praticadas pelos investigados estão divisão do mercado para vender serviços com cartas marcadas, eliminação da concorrência e ágio de até 40% no preço dos fretes. As autoridades também constataram que as montadoras que escolhem transportadoras fora do esquema são coagidas com piquetes e queima de caminhões e cargas.

Os documentos apreendidos na Operação Pacto ainda estão sendo analisados. O objetivo agora é identificar a responsabilidade pormenorizada de cada pessoa física que deverá responder criminalmente por crimes contra a ordem econômica e associação criminosa. Policiais federais, técnicos do Cade e promotores do Gaeco estão debruçados sobre a farta documentação, desde outubro de 2019.