Medioli usa gabinete de prefeito para tratar assuntos particulares e do grupo Sada, revela ex-líder sindical

Em postagem de vídeo disseminada pelo aplicativo WhatsApp, Afonso Rodrigues de Carvalho, que denunciou o cartel dos cegonheiros por duas décadas, revela estar saindo da prefeitura de Betim (MG), onde manteve encontro com o prefeito Medioli e Luiz Titto. A reunião, que durou 1h40min, foi suficiente, segundo Carvalho, para saber ter sido usado por mais de 20 anos. Dono do grupo Sada é réu na mesma ação penal em que Carvalho é testemunha do Ministério Público de São Paulo.

A revelação feita pelo ex-líder sindical mostra que o prefeito de Betim (MG), Vittorio Medioli, não se incomoda com o fato de misturar a administração pública – para a qual foi eleito e reeleito – com os seus negócios particulares como empresário. Envolto numa série de procedimentos investigatórios que atinge o setor de transporte de veículos novos, o chefe do Executivo betinense recebeu, na tarde do dia 29 de janeiro deste ano, Afonso Rodrigues de Carvalho, que durante 20 anos denunciou a participação não só de Medioli como também de suas empresa no chamado cartel dos cegonheiros. O encontro foi acertado por Luiz Tito, que em 2015, ofereceu R$ 1,5, milhão ao editor do site Anticartel (na época), para prestar um depoimento fraudulento, acusando empresas concorrentes.

O vídeo foi divulgado por Carvalho no final de janeiro, mas só chegou nesta semana à redação do Livre Concorrência. As imagens foram gravadas ainda no estacionamento do paço municipal de Betim. A partir dessa reunião, Carvalho fez acordo em queixa-crime movida contra ele por Medioli na comarca de São Bernardo do Campo (SP). Em 10 de março deste ano, foi firmada uma Escritura Pública, na qual o ex-líder sindical afirma ter feito a série de denúncias contra o cartel dos cegonheiros por conta da baixa escolaridade, o que o impedia de conhecer com clareza os fatos a ele transmitidos.

Foi depois de protocolada a Escritura Pública, avaliada pelas partes em R$ 1 milhão, que Carvalho passou a assumir o discurso dos integrantes do cartel dos cegonheiros – uma associação criminosa, segundo o Ministério Público Federal, Gaeco e Polícia Federal, que controla o setor de transporte de veículos novos em todo o país. No mesmo dia em que a escritura pública foi apresentada ao Foro de São Bernardo do Campo, 5 de abril, cópia do documento firmado por Carvalho foi protocolada no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), como revelam documentos reproduzidos abaixo. No órgão antitruste, a Brazul Transporte de Veículos, de propriedade de Medioli, aparece como uma das empresas representadas no inquérito administrativo que apura a prática de infrações à ordem econômica. O documento foi protocolado pelo Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo, o Sintraveic-ES, um dos alvos da Operação Pacto, junto com Sada e Tegma.

Após assumir a nova conduta, Carvalho conseguiu recursos para quitar antecipadamente o financiamento de dois caminhões, numa operação que envolveu mais de R$ 500 mil. Justificou que vendeu oito caminhões, o que lhe rendeu R$ 2,3 milhões. Os dois veículos que foram alvo de busca e apreensão pelo Banco Mercedes-Benz foram parar na concessionária Deva Veículos, de Betim, de propriedade da Sada, que tem como sócio-administrador o político e empresário Vittorio Medioli. Carvalho também conquistou vagas nas transportadoras que acusou ao longo dos últimos 20 anos, por formação de cartel. Caminhões de propriedade da Deken Transportes (do filho e mulher de Carvalho) foram registrados na ANTT em uma nova empresa, também surgida depois do acordo feito entre Medioli e Carvalho – a Transrdc, que tem como única sócia a cunhada de Carvalho.

Mistura do público e do privado
Questionado pelo site Livre Concorrência sobre o fato de tratar de assuntos particulares e de suas empresas no gabinete do prefeito, Vittorio Medioli não se manifestou até o fechamento da edição. O site indagou ainda quais os benefícios aos cidadãos betinenses resultaram do encontro ocorrido no gabinete do chefe do Poder Executivo Municipal entre uma testemunha do Gaeco na mesma ação em que Medioli é réu. Também não houve resposta para essa questão.