Sada contribuiu 26 meses para site que Vittorio Medioli acusa ser patrocinado e dirigido por empresário gaúcho

Alvo de vários procedimentos abertos pela Polícia Federal, Gaeco de São Paulo e Cade, Vittorio Medioli comunica que acionou a Polícia Civil de Betim – cidade que administra como prefeito – para que o site Livre Concorrência seja investigado. O político e empresário de Minas Gerais, investigado pelos órgãos acima por crimes praticados pelo chamado cartel dos cegonheiros, acusa o jornalista e editor Ivens Carús de promover a “desestabilização do setor”. Medioli, já apontado pela Polícia Federal como chefe da quadrilha que controla o transporte de veículos novos no pais, protocolou notícia-crime na Delegacia Regional de Betim. Ele diz que o site é “patrocinado e dirigido pelo senhor Sérgio Gabardo”. Ao longos de 26 meses, empresas do proprietário do grupo Sada também patrocinaram o site, sem interferir na linha editorial do veículo. O insucesso na tentativa de calar o site ou mudar o enfoque das matérias culminou em proposta de compra, recusada por Carús. Informações privilegiadas do inquérito que está sob sigilo foram repassadas pelo próprio prefeito.

Vittorio Medioli, prefeito – reeleito – de Betim (MG) e proprietário do grupo Sada, encaminhou correspondência eletrônica ao editor do site Livre Concorrência, jornalista Ivens Carús, na qual comunica ter acionado a Polícia Civil da cidade que administra posicionando-se como vítima, e não alvo do Estado Brasileiro. Apesar da Polícia Civil de Minas Gerais afirmar que o inquérito tramita em sigilo, o prefeito detém informações privilegiadas e as repassa.

Em e-mail encaminhado ao jornalista Ivens Carús, ele escreveu sobre o conteúdo do inquérito:

“Quase mil e quinhentas publicações feitas para denegrir a minha imagem e a do grupo Sada, a bem da verdade, hoje documentado no Inquérito Policial de n. 2020-012826792-001, instaurado no âmbito da Delegacia Regional de Betim/MG.”

Ele também refere-se às reportagens publicadas no site Anticartel.com, que antecedeu o Livre Concorrência.

Medioli acusa o empresário Sérgio Gabardo de “patrocinar e dirigir o site”. Ele omite que durante 26 meses o grupo Sada ajudou a patrocinar o site, entre os anos de 2012 e 2015, período em que tais contribuições não conferiram à Sada qualquer influência na linha editorial das matérias veiculadas ou na conduta ética e profissional do editor. Essa regra vale para todos os anunciantes. Medioli também não cita que o site Abraboca – que antecedeu o Anticartel – foi adquirido em 2005 por um funcionário da Brazul. Esse veículo teve a linha editorial alterada e posteriormente foi desativado. Compraram o site dissimuladamente para calar o jornalista Ivens Carús.

As contribuições da Sada ao site foram aprovadas, à época, pelo vice-presidente do grupo Sada, Luiz Alberto de Castro Tito. O fato ocorreu três anos antes de proposta de pagamento de R$ 1,5 milhão ao editor do site para prestar depoimento fraudulento, a título de antecipação de prova, acusando empresas concorrentes às do cartel dos cegonheiros. A propósito, 61,5% das contribuições do grupo Sada ao site foram depositadas na agência 7463 do Banco Itaú, localizada a 200 metros da sede da Brazul, em São Bernardo do Campo (SP).

Em mensagens trocadas com o jornalista Ivens Carus, Luiz Tito escreveu, em 2015:

O ex-vice-presidente da Sada acrescentou:

Todos os diálogos acima foram registrados em ata notarial e posteriormente encaminhados ao Ministério Público Federal. Sobre o pagamento de R$ 1,5 milhão ao editor, o valor, que seria entregue em uma mala, foi rejeitado pelo jornalista e o fato denunciado ao Ministério Público de São Bernardo do Campo (SP) e ao Ministério Público Federal do mesmo município. Luiz Tito também gestionou a participação da Tegma Gestão Logística, que passou a patrocinar o site, sem qualquer menção a um comprometimento a respeito da linha editorial. O vice-presidente do grupo Sada apresentou, na ocasião, como interlocutor da negociação, o advogado Frederick Wassef, como sendo “da confiança do grupo”. Encerrada a fase de negociação, Wassef alertou:

“Eles vão te processar até te quebrarem.”

Segundo se queixa Medioli, as matérias veiculadas no site Livre Concorrência e no anterior, denominado Anticartel, são “caluniosas, infamantes e difamatórias”. Ele escreve:

“Suas ações [referindo-se ao trabalho do jornalista Ivens Carús] se destinam sempre ao exercício de tentar desestabilizar o setor, tudo isso, segundo provas contidas no referido inquérito policial – que está sob sigilo – patrocinado e dirigido pelo senhor Sérgio Gabardo, que, inclusive, teve oportunidade de ser ali ouvido no último 5 de julho, quando se manteve em silêncio.”

As informações privilegiadas do inquérito foram reveladas pelo prefeito em e-mail encaminhado ao editor.

No mesmo e-mail, o político e empresário cita mais quatro queixas-crime movidas contra o editor e o site Livre Concorrência, todas impetradas na cidade que administra. A acusação, segundo o texto, é publicação de “fake news”. Chama atenção a que Medioli qualifica como “fake”, referindo-se ao fato de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ter negado prerrogativa de foro ao prefeito e empresário, que pretendia manter no Tribunal de Justiça de Minas Gerais o processamento do inquérito 277/2010 da Polícia Federal que o aponta como “chefe da quadrilha investigada”, como divulgado na edição do dia 4 de março de 2020, em texto intitulado STF nega foro privilegiado e Vittorio Medioli terá de prestar contas à Polícia Federal no Rio Grande do Sul.

Em todas as queixas-crime movidas por Medioli contra o site e seu editor, até o momento, o Ministério Público tem se manifestado pela rejeição. Duas delas já foram arquivadas definitivamente.

Procurado pelo site, o prefeito não quis responder aos questionamentos até o fechamento da edição. O mesmo aconteceu com o ex-vice-presidente do grupo Sada, Luiz Tito que, apesar do estreito relacionamento com Medioli, igualmente preferiu não responder.

Medioli x Estado Brasileiro
O político e empresário é alvo do Estado Brasileiro. É apontado pela Polícia Federal, no inquérito policial 277/2010, como o “chefe da quadrilha investigada”. A peça está tramitando na 11ª Vara Criminal da comarca de Porto Alegre e aguarda manifestação do Ministério Público, que deverá apresentar a denúncia, solicitar novas diligências ou pedir o arquivamento.

Gaeco
Medioli também é réu em ação penal movida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Bernardo do Campo (SP), em que responde às acusações de formação de cartel no setor de transporte de veículos novos e formação de quadrilha. Além dele, também são réus: Edson Luiz Pereira, Roberto Carlos Caboclo e Mário de Melo Galvão, integrantes do grupo Sada. Há mais seis executivos do grupo Tegma e o ex-presidente da Associação Nacional das Empresas Transportadoras de Veículos (ANTV), Luiz Salvador Ferrari.

Promotoria de Investigação Criminal
O Gaeco de São Bernardo do Campo também investiga, no âmbito do PIC 03/2015, a “eventual prática de crimes de organização ou associação criminosa, formação de cartel, falsos documentais e tributários e lavagem de dinheiro, cometidos desde o ano de 2011 até a presente data, no município de São Bernardo do Campo/SP, por exploradores de transporte de veículos novos, a serem identificados”.

Operação Pacto
Em outra frente do Estado Brasileiro, empresas de transporte de veículos pertencentes a Medioli foram vasculhadas por policiais federais em 17 de outubro de 2019. A operação, denominada Pacto, foi deflagrada pela Polícia Federal, em colaboração com o Gaeco de São Bernardo do Campo e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade.

A primeira fase da Operação Pacto reiterou fatos já apontados em outros inquéritos:
– Há indícios de que o cartel dos cegonheiros existe.
– Esse cartel seria formado por grandes empresas e atuaria em todo o território nacional.
– Cartel teria fatiado o mercado a fim de vender os serviços com cartas marcadas.
– Novas empresas seriam impedidas de operar no segmento.
– A atuação desse suposto cartel teria feito com que o preço do frete seja 30% a 40% superior ao que poderia ser praticado se houvesse competição.
– Montadoras que escolhem empresas fora do cartel seriam coagidas com piquetes e queima de caminhões.

Cade
Já no Cade, a Brazul Transporte de Veículos, de propriedade do grupo Sada e Vittorio Medioli, é uma das representadas em inquérito administrativo que investiga possíveis práticas de infrações à ordem econômica – formação de cartel. Além dela, também são representadas a Tegma, Gestão Logística e a Transcar. A denúncia foi feita pelo Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo (SIntraveic-ES), que acusa os representados de oferecerem benesses e pressionar cegonheiros ligados à entidade sindical patronal, para que organizassem manifestações violentas contra empresa concorrente, a Transilva Logística, que tem sede em Vitória-ES.