Polícia Civil mineira poderá apurar vazamentos de inquérito instaurado a pedido de Vittorio Medioli

Apesar de a Polícia Civil garantir que o inquérito é sigiloso, informações privilegiadas são repassadas pelo próprio político e empresário. O escritório Décio Freire Advogados, autor da notícia-crime, encaminhou ao Cade vídeos com depoimentos de investigado que aderiu ao cartel dos cegonheiros, após denunciar a organização criminosa por mais de 20 anos e depois de firmar acordo comercial com o prefeito de Betim e proprietário do grupo Sada.

A Assessoria de Imprensa da Polícia Civil de Minas Gerais revelou ao site Livre Concorrência que a Polícia Civil se pronunciará ao final do inquérito, após a remessa dos autos à Justiça. O órgão público manifestou-se, respondendo questionamento a respeito de vazamento de informações privilegiadas enviadas pelo escritório Décio Freire Advogados a outros procedimentos. Essa banca protocolou notícia-crime numa delegacia de Polícia da cidade administrada por Vittorio Medioli e anexou partes de depoimentos a processo que tramita no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Ainda de acordo com a assessoria da Polícia Civil mineira, após assegurar que o inquérito tramita sob sigilo, acrescenta que os advogados dos investigados – e do autor da notícia crime – têm acesso ao conteúdo, ressalvadas as diligências em curso. “Caso o vazamento da informação vier a se caracterizar crime, cabe à Polícia Civil de Minas Gerais apurar”.

Uma extensa petição que tenta desqualificar a denúncia que se transformou em inquérito administrativo na autoridade antitruste contém vídeos e textos de depoimentos prestados ao âmbito do inquérito policial de Betim. O material anexado é de autoria de um investigado que aderiu ao cartel dos cegonheiros denunciado por ele ao longo de 20 anos, após firmar acordo comercial com o prefeito de Betim e proprietário do grupo Sada, Vittorio Medioli. Outros documentos também foram acostados aos autos do procedimento em andamento no Cade. Em queixa-crime movida pelo político e empresário na comarca de Porto Alegre, o escritório DFA adotou o mesmo esquema.

Ao órgão antitruste, o escritório tenta explicar que por diversas vezes o chamado cartel dos cegonheiros foi alvo de procedimentos, sem que houvesse qualquer prova de infração à ordem econômica. Esqueceu de citar a condenação na Ação Civil Pública da General Motors do Brasil, Luiz Moan Yabiku Júnior, então diretor da montadora norte-americana, Sinaceg e Associação Nacional das Empresas Transportadoras de Veículos (ANTV), entidade controlada pelo grupo Sada que foi extinta por decisão judicial por ser uma associação criada para cometer ilícitos. Também não fez qualquer menção à Operação Pacto, deflagrada pela Polícia Federal, Gaeco e Cade, em 17 de outubro de 2019, quando policiais federais fizeram buscas e apreensões nas sedes de pelo menos duas empresas de transporte de propriedade do grupo Sada, além da Tegma Gestão Logística, Transcar e no Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo, o Sintraveic-ES.

Cabe lembrar ainda que em 21 de julho deste ano, por meio de correspondência eletrônica encaminhada ao editor do site, jornalista Ivens Carús, Medioli já havia revelado a existência do referido inquérito, e chegou a mencionar que o empresário Sérgio Gabardo havia sido intimado para depor e preferiu se manter em silêncio, demonstrando amplo conhecimento do andamento do inquérito da delegacia local.