Empresas não alinhadas ao cartel detêm menos de 10% do mercado

Com participação em três montadoras e uma importadora de veículos, transportadoras chamadas de independentes não conseguem avançar no escoamento da produção de outras marcas. Enquanto o chamado cartel dos cegonheiros financia greves para manter o controle do setor e abocanha 91% do total transportado, essas transportadoras estão na faixa dos 9%. Só o ágio cobrado pelas empresas vinculadas ao cartel equivale a 5,8 vezes o faturamento bruto das que não estão alinhadas ao esquema de superfaturamento dos fretes.

O cartel dos cegonheiros, liderado por dois grandes grupos econômicos, Sada e Tegma, com o apoio de sindicatos patronais de empresas cegonheiras espalhados pelo país, impede o crescimento de transportadoras não alinhadas. Para isso, utiliza inclusive o mecanismo de financiamento de greves para manter o mercado fechado e impedir a livre concorrência. As empresas que não integram o esquema respondem pelo transporte de 9% do volume de automóveis e comerciais leves comercializados no Brasil. Em termos de faturamento, os detentores do controle absoluto do mercado faturaram 11,1 vezes mais do que as classificadas como independentes, que operam em três montadoras e uma importadora (Hyundai Piracicaba, Hyundai Goiás, Caoa Chery e Kia Motors).

Enquanto o grupo dominante abocanhou R$ 8,6 bilhões em fretes, as empresas que estão fora do esquema chegaram aos R$ 588,7 milhões, equivalente a 6,77% desse montante. Só o ágio, que no ano passado chegou a cifra de R$ 3,4 bilhões representa 5,8 vezes o faturamento das transportadoras não alinhadas ao cartel dos cegonheiros. Elas foram responsáveis pelo transporte de 176.039 automóveis e comerciais leves, contra os 1.782.366 transportados pelos integrantes do cartel.

No bloco das não alinhadas, encontram-se a Transportes Gabardo, que tem sede em Porto Alegre (RS), a Júlio Simões, de Mogi das Cruzes (SP), e a Transilva Logística, de Vitória (ES). A JSL adquiriu, em 2020, o controle acionário da Transmoreno (PR), e continua aplicando os mesmos valores de frete cobrados pelas transportadoras acusadas de formação de cartel. A empresa de Mogi das Cruzes também participa de uma fatia no escoamento da produção da General Motors, por decisão da Justiça Federal, onde pratica valores de fretes abaixo dos cobrados pelas demais transportadoras.

Já a Transilva, responsável pelo transporte dos veículos da marca Kia e pelas operações de porto da Ford, teve três executivos – José Geraldo Valadão, Adilson da Silva Simões e Marcelo Zaffonato – indiciados pela Polícia Federal por participação no cartel, mesmo tendo firmado acordo de leniência com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), no âmbito da Operação Pacto. De acordo com os investigadores, houver participação no cartel ate ocorrer um desacerto entre os integrantes, o que resultou no acordo com o órgão antitruste.