Polícia chega ao sistema nervoso central do cartel dos cegonheiros

É inegável. O sistema nervoso central do chamado cartel dos cegonheiros recebeu visitas inesperadas do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Paulo e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade. Amparada por ordem judicial, lá em outubro de 2019, a Polícia Federal apreendeu centenas de documentos, equipamentos eletrônicos, agendas. O material levou os investigadores, no âmbito da Operação Pacto, ao cérebro do cartel. As revelações estão surgindo aos poucos, mais de dois anos depois, por conta do “apagão” promovido pela pandemia, o que atrasou os trabalhos de análise da farta, inquestionável e incontestável documentação probatória.

As entranhas do cartel estão se tornando públicas. Raríssimos os veículos comprometidos com o dever de informar à sociedade divulgam o que foi encontrado por policiais federais, técnicos da autoridade antitruste e promotores de Justiça. Nos atrevemos a insinuar que o site Livre Concorrência é o único do país a fazer tais revelações. O cartel dos cegonheiros é estrutura organizada absolutamente abusiva, que transforma, segundo entendimento oficial – temos opinião formada contraditória -, grandes montadoras em reféns de um seleto grupo de transportadores, os quais, em outras frentes, tentam transmitir a ideia de que são vítimas.

Um escândalo sem precedentes. Uma organização que causa prejuízo superior a R$ 3 bilhões por ano aos consumidores e que até hoje está incólume. Aposta na prescrição dos crimes contra a sociedade brasileira por conta da morosidade do Estado Brasileiro e sente-se até então, inatingível, absolutamente protegida pelo manto da impunidade. Mas ao que tudo indica, a partir dos elementos comprobatórios recolhidos – que não são poucos – há uma forte tendência à adoção de medidas capazes de “congelar” a ação desses infratores. E virá da autoridade competente.

Documentos apreendidos na sede de transportadoras que posam de “concorrentes” trazem à luz, o verdadeiro conchavo existente para manter o mercado fechado e, por consequência, impedir o ingresso de novos agentes econômicos. Vários são os exemplos insofismáveis. Financiamento de greves de cegonheiros ao custo de quase R$ 3 milhões (partilha dos custos devidamente documentada); reuniões na sede de montadora de veículos entre “concorrentes”, onde são tratadas questões para “driblar” determinação judicial; mapas de divisão de mercado; correspondências eletrônicas determinando desconto de até 60% no valor de frete para “desbancar” pequenas e médias empresas; correspondência eletrônica encaminhada a presidente de montadora mencionando descontos do frete de 4%, o que representa economia de R$ 22 milhões por ano – economia jamais repassada aos consumidores – em troca de “congelamento” de projeto de transporte de veículos por cabotagem; destinação de milhares de reais para sindicato de cegonheiro “podar árvores”; subcontratação entre empresas que se mostram como “concorrentes”; contratos de comodato entre “concorrentes”; tabelas de preço de frete que passam de mão em mão sobre valores cobrados de várias montadoras. Um escândalo sem precedentes.

É imperioso que decisões firmes sejam adotadas visando a estancar os constantes prejuízos à economia e à sociedade brasileira. Um enorme escândalo nas mãos de duas autoridades constituídas. A primeira, é o Cade, onde técnicos com profundo conhecimento de ações anticoncorrenciais estão debruçados sobre farto material apreendido. Trabalham para desatar o nó criado pelo cartel dos cegonheiros. Para o bem da sociedade, estão concluindo a análise. Na outra extremidade, promotores de Justiça do Gaeco (órgão especializado do Ministério Público de São Paulo), que elaboraram a denúncia de pelo menos 12 indiciados no inquérito da Polícia Federal. A manifestação já está no Judiciário de São Bernardo do Campo, onde novamente foi decretado segredo de Justiça ao processo.

Ivens CarúsEditor