Ações de integrantes do cartel “congelam” projeto de cabotagem na GM

Desconto de 4% no frete, que teria proporcionado economia de R$ 44 milhões – R$ 22 milhões por ano – foi concedido para montadora “congelar” projeto de cabotagem por dois anos. Sindicatos patronais do RS e SP, mais uma vez, atuaram como braço político e operacional das grandes transportadoras que controlam o mercado de fretes realizado por caminhões-cegonha no país. Dessa vez trabalharam para prorrogar a adoção do sistema de cabotagem planejado pela GM para transportar veículos novos produzidos na planta de Gravataí (RS).

Em outro e-mail apreendido pela Polícia Federal na manhã de 17 de setembro de 2019 – quando foi deflagrada a Operação Pacto – Gilberto Portugal, então diretor-geral da Brazul, informa ao presidente da General Motors do Brasil à época, Santiago Chamorro – atualmente em segundo mandato -, sobre a insatisfação de sindicatos patronais com o estudo referente à implementação da cabotagem para escoar a produção da planta instalada em Gravataí (RS). O executivo (já falecido) da transportadora pertencente ao grupo Sada escreveu “infelizmente a reação não foi nada boa”, mencionando também o Sindicam (Sinaceg). Cita que representantes do Sindicato dos Cegonheiros do Rio Grande do Sul (Sintravers) se manifestaram contrários à adoção do uso de navios para transportar veículos novos. Acabou apresentando modelo que adiaria a implementação da cabotagem por mais de dois anos. Essa não é a primeira vez que sindicatos e transportadoras ligadas ao cartel dos cegonheiros sabotam a adoção desse modal no país.

Reprodução de trecho de e-mail citado na matéria. O documento foi apreendido na Operação Pacto.

No texto, encaminhado ao presidente da GMB em 21 de julho de 2014, Portugal destacou:

“A GMB convidou o Sindicato do RS/Sintravers para uma uma reunião em São Caetano do Sul, e estiveram presentes dois membros dessa entidade… Após o encontro, nos procuraram com a seguinte colocação: que estiveram com a GMB e informaram que não poderiam concordar com a cabotagem porque impactaria nos trabalhos que fazem no local e que também procuraram o Sindicam [Sinaceg] informando isso. Portanto, se houver volume para a cabotagem que seja dos agregados ao Sindicam-SPaulo.”

Reprodução de trecho de e-mail citado na matéria. O documento foi apreendido na Operação Pacto.

Por conta da posição dos cegonheiros gaúchos, Portugal acrescentou:

“Não havia mais como prorrogarmos uma conversa mais firme sobre isso e tivemos de convidar ambos os sindicatos [Sinaceg e Sintravers] para um encontro onde expusemos as ideias do que se pretende (cabotagem/volumes/data de implementação, etc.)”

A proposta não foi bem acolhida pelos donos de transportadoras vinculados às duas entidades. Portugal relata ao presidente da GMB uma alternativa construída por sindicalistas e dirigentes de transportadoras:

“Infelizmente a reação não foi nada boa e dado momento com os volumes em queda, pior ainda. Várias outras reuniões ocorreram e saiu disto uma proposta que consideramos excepcional e que vínhamos tentando há muito tempo sem sucesso. Eles concordaram com uma redução nos fretes de Gravataí (geral) em 4% e pelos nossos cálculos, isto representa uma redução anual de mais de R$ 22 milhões.”

O executivo da Brazul sugeriu:

“A proposta é por dois anos e neste período o projeto cabotagem fica congelado e retomamos o diálogo sobre o mesmo em julho de 2017.”

E concluiu:

“Me perdoe pela objetividade do e-mail, porém, insisto, fiquei preocupado de deixarmos a oportunidade passar para algo que vínhamos tentando há muito tempo sem obter sucesso. Obrigado pela atenção de sempre e fico à disposição. Estou enviando este e-mail apenas ao amigo para que me oriente como seguir com isto.”

A ideia inicial da GM era iniciar os embarques em 4 de agosto de 2014.

Reprodução de trecho de e-mail citado na matéria. O documento foi apreendido na Operação Pacto.

Corporação do atraso
Em 1997, a reação do cartel contra determinação da Fiat de transportar para o Nordeste 800 veículos por semana em navios provocou uma greve nacional dos donos de caminhões-cegonha. Na ocasião, o jornalista Luiz Nassif, da Folha de São Paulo, qualificou o grupo que não admite a livre concorrência, inclusive com outros modais, de corporação do atraso.

A novidade acabou naufragando. O cartel dos cegonheiros se mobilizou e eliminou a possibilidade de o consumidor nordestino pagar menos por veículos novos.

Nassif contou como os cegonheiros reagiram:

“A reação dos donos de caminhão foi um locaute nacional. Não queriam nem aumento de frete, mas apenas impedir a ampliação da cabotagem. Com a pressão, conseguiram que a Volskwagen, Ford e General Motors reduzissem o transporte de cabotagem para 400 veículos semanais.”

O recuo, por parte das montadoras, foi descrito assim:

“É um enorme retrocesso em termos de direitos dos consumidores, de combate às corporações e redução do custo Brasil.”

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– Estímulo à navegação de cabotagem deve gerar reação de cartel que controla transporte de veículos novos

Há mais de 20 anos, Folha de São Paulo considerava o cartel dos cegonheiros como corporação do atraso