Matriz da GM se nega a comentar envolvimento da filial brasileira em cartel

Assessoria de comunicação social da fábrica norte-americana adota a mesma postura da GM no Brasil: nega-se a comentar o envolvimento das unidades de Gravataí (RS) e São Caetano do Sul (SP) com o chamado cartel dos cegonheiros, o que resultou em condenação já em segunda instância na Justiça Federal. Assessores também não respondem a questionamentos sobre ausência de BID e contratos vencidos com transportadoras de veículos.

Apesar das várias correspondências eletrônicas enviadas no idioma inglês para a Assessoria de Imprensa da General Motors em Detroit, nos Estados Unidos da América, a montadora prefere manter o silêncio. Mesma prática adotada pela assessoria da montadora no Brasil. Nos dias 17 e 24 deste mês, o site Livre Concorrência publicou matérias a respeito do conteúdo de documentos apreendidos pela Polícia Federal no âmbito da Operação Pacto. Parte do material mostra a realização de várias reuniões com executivos da montadora – entre eles o Luiz Rodrigues, gerente global de compras da GM – e integrantes das transportadoras Tegma e Brazul. Nos encontros eram discutidos os seguintes assuntos: falta de realização de BID (cotação de preços para contratar transportadoras), contratos de transporte de veículos vencidos, descontos no valor do frete em troca do congelamento de projeto de cabotagem, entre outros assuntos.

Por meio de uma jornalista sediada em Los Angeles (EUA), o site Livre Concorrência também tentou contato telefônico e por correspondência eletrônica com Philip Liener, um dos assessores de imprensa da Chevrolet (a GM dos Estados Unidos), mas não obteve retorno. No material enviado a Liener, foram feitos questionamentos a respeito da posição da montadora no Brasil, em especial às queixas que teriam sido reveladas pelo gerente global de compras, Luiz Rodrigues. Entre essas queixas, estariam a cobrança da matriz da GM pela ausência de BID aqui no Brasil, contratos vencidos e reajustes de preços nos valores pagos a título de frete “muito parecidos” entre as transportadoras responsáveis pelo escoamento da produção. Num desses comentários, Rodrigues teria afirmado:

“A cobrança da matriz em determinado momento virá, e terá de ser colocada em prática.”

As correspondências foram trocadas entre integrantes do chamado cartel dos cegonheiros. Há, inclusive, um e-mail enviado por executivo (já falecido) da Brazul, diretamente ao presidente da GM no Brasil, Santiago Chamorro.

Confira as perguntas encaminhadas à sede da GM nos Estados Unidos
1 – Como a matriz da GM vê o fato de cobrar procedimentos da montadora no Brasil e isso não ser atendido?
2 – Como a matriz da GM vê o fato de a GMB ter sido condenada por participação na formação de cartel no setor de transportes de veículos novos e mesmo assim continuar adotando o mesmo sistema no escoamento da produção?
3 – Como a matriz pretende conduzir a questão da aplicação de multa – por participação no cartel – imposta pela Justiça Federal, que em valores atuais deve chegar aos R$ 500 milhões?

A General Motors do Brasil, junto com o então diretor para assuntos institucionais da montadora, Luiz Moan Yabiku Júnior, foi condenada por participação ativa no chamado cartel dos cegonheiros – uma organização criminosa, segundo a Polícia Federal – que causa prejuízos superior a R$ 3 bilhões por ano aos consumidores brasileiros. Na mesma ação movida pelo Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul, a GM deverá pagar uma multa equivalente a R$ 500 milhões. Já houve condenação em segunda instância. Além da montadora, também foram condenados, com pagamento de multa de R$ 300 mil, o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg, ex-Sindicam) e a Associação Nacional das Empresas Transportadoras de Veículos (ANTV) que, além da multa de R$ 5 milhões, foi extinta compulsoriamente pela Justiça Federal, sob o argumento de que se trata de uma entidade criada para cometer ilícitos. ANTV era controlada pelo grupo Sada e também contava com a participação da Tegma, principal operadora de logística da GM. Até agora, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, o TRF-4 não se posicionou acerca de embargos de declaração.

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