Comando do cartel é exercido por Medioli, afirmam Polícia Federal e Ministério Público

Proprietário do grupo Sada é apontado como o todo poderoso comandante do chamado cartel dos cegonheiros que controla mais de 90% do bilionário setor de transporte de veículos novos no país. Mesmo não tendo sido denunciado e sequer indiciado em inquérito policial federal, Vittorio Medioli é citado como a pessoa que supostamente dá ordens, principalmente para atear fogo em caminhões-cegonha de concorrentes. O político e empresário também é investigado e acusado em outras frentes no estado de São Paulo.

O Ministério Público gaúcho não tem dúvidas de que o ordenador e financiador do cartel dos cegonheiros (Gilberto dos Santos Portugal – já falecido) agia em obediência ao comando de Vittorio Medioli, financiando a execução das queimas de caminhões cegonha de empresas dissidentes, segundo apurado nas investigações da Polícia Federal (conforme reprodução abaixo). Aqui vale um registro. Fato idêntico foi levado à Justiça de São Paulo, em depoimento prestado pelo então líder sindical Afonso Rodrigues de Carvalho, ao garantir que o “chefe do cartel no Brasil se chama Vittorio Medioli”. A afirmação em juízo foi desmentida pelo próprio sindicalista, após acordo milionário firmado entre ele, testemunha do Gaeco de São Bernardo do Campo, e Medioli, réu na mesma ação, acusado de formação de cartel e de quadrilha.

Antes mesmo da denuncia do MP gaúcho, a defesa do proprietário do grupo Sada se apressou em pedir a extinção da punibilidade, principalmente pelo fato de o político e empresário já ter chegado aos 70 anos de idade. Perpetuidade do cartel foi confirmada nove anos depois pela Polícia Federal no âmbito da Operação Pacto.

Conteúdo extraído da denúncia do MP-RS encaminhada à Justiça (página 7).

Apesar de não ter sido indiciado e denunciado formalmente, tanto a Polícia Federal quanto o Ministério Público trazem à tona o fato de que no decorrer das investigações, Vittorio Medioli surge como o nome de quem supostamente “determina tais crimes juntamente com o seu irmão, Alberto Medioli”, segundo depoimento prestado pelo advogado Miguel Arcanjo César Guerrieri, que trabalhou durante 20 anos para a Sada. Ele morreu com a mulher em acidente de trânsito. Guerrieri descreveu que “o funcionamento do cartel parte do comando de Vittorio Medioli, sendo considerado o comandante do cartel, e que dele saem as ordens de queima, bloqueios ou ameaças, geralmente executadas por auxiliares cegonheiros que desejam ter a sua própria cegonha como prêmio”.

Conteúdo extraído da denúncia do MP-RS encaminhada à Justiça (página 17).

De acordo com o depoimento – conseguido com exclusividade pelo site Livre Concorrência -, o advogado afirma que no período em que esteve na empesa pode constatar que ‘“esse cartel se mantém porque existe um mercado negro de venda de vagas, as quais são feitas com pagamento em dinheiro vivo – dólares -, sendo levados para Betim por Robero Carlos Caboclo e Luiz Alberto de Castro Tito”. Para Guerrieri, “o interesse do grupo Sada é manter os concorrentes amedrontados, atraindo para si a fama de competência na garantia do negócio para assegurar apoio de investidores italianos que são associados do grupo Sada. Além de comandar o cartel, Medioli atua para protegê-lo, dando amparo jurídico aos seus ajudantes de ordens”.

Conclusões do Inquérito 277/2010, presidido pelo delegado da Polícia Federal Aldronei Antonio Pacheco Rodrigues (página 13).

Na denúncia por formação de cartel e associação criminosa que atinge seis pessoas, a representante do MP gaúcho destaca que “o grupo se uniu em evidente abuso do poder econômico operando para impedir o funcionamento da rede de distribuição de veículos zero-quilômetro pelas empresas dissidentes do cartel dos cegonheiros”. Os meios empregados para alcançar os objetivos, de acordo com a peça acusatória, “eram o de ameaças ou incêndios dos caminhões e das cargas transportadas provocando com isso pânico e temor, buscando a exclusão de concorrentes do mercado por meio de intimidação e medo”. Num segundo nível, ainda segundo a denúncia, “as ações do grupo também eram orquestradas com o intuito de abalar a confiança das concorrentes dissidentes do cartel perante as montadoras em razão das queimas e paralisações”.

Ministério Público paulista
No relatório final do inquérito, o delegado federal Aldronei Pacheco Rodrigues, que presidiu a investigação, sugeriu que “abrangendo a análise para os crimes de cartel obrigatoriamente deverão ser englobados seus mandantes, quais sejam Vittorio Medioli e a cúpula do grupo Sada, que já são por demais conhecidos dos meios policiais, judiciais e de alçada administrativa, como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a serem avaliados pelo Gaeco”.

Conclusões do Inquérito 277/2010, presidido pelo delegado da Polícia Federal Aldronei Antonio Pacheco Rodrigues (página 18).

Nas diligências criminais que amparam a Operação Pacto, deflagrada em 17 de outubro de 2019, o Gaeco de São Bernardo do Campo revelou estar em andamento procedimento criminal onde surgem como investigados, Vittorio Medioli (grupo Sada), Gennaro Oddone (Tegma), José Ronaldo Marques da Silva (Boizinho), presidente do Sindicato Nacional dos Cegonheiros – Sinaceg -, Waldelio de Carvalho Santos, presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo – Sintraveic-ES – e Jardel de Castro, presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Rio de Janeiro.

Documentos apreendidos pelos federais em 2019 – investigação foi desencadeada a pedido do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade -, indicam a perpetuidade da ação do cartel dos cegonheiros. E-mail enviado por Medioli, instituindo o “P-60”, mostra a prática da política de preços predatórios visando “desbancar as gatas e outros”, pequenos transportadores sediados em São Paulo, eliminando concorrentes. Nos documentos apreendidos, o proprietário do grupo Sada determina a instituição de descontos de 60% no valor dos chamados fretes retorno, a ser praticado por outra empresa de sua propriedade, a Autoservice. Em resposta ao site Livre Concorrência, Medioli assegurou que os descontos são praticados.

Contraponto
Procurado pelo site Livre Concorrência, Vittorio Medioli não quis se manifestar sobre as conclusões do Ministério Público do Rio Grande do Sul e da Polícia Federal. Um dos advogados da Sada preferiu ameaçar o editor do site com uma nova ação, numa tentativa frustrada de intimidação, fazendo comentários e acusações fora do contexto da atual reportagem.

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