Novo acordo de leniência tem potencial para ruir o cartel dos cegonheiros

O presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo (Sintraveic-ES), Waldélio de Carvalho dos Santos, decidiu contar ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade – inicialmente -, tudo que sabe sobre o chamado cartel dos cegonheiros e apresentar provas. Líder sindical capixaba enfrenta indiciamento da Polícia Federal no âmbito da Operação Pacto.

Um segundo acordo de leniência, provavelmente uma delação premiada por se tratar de pessoa física, envolvendo o chamado cartel dos cegonheiros – uma associação criminosa que controla com mãos de ferro o setor de transporte de veículos novos em todo o país e causa prejuízos de R$ 3 bilhões por ano aos consumidores – começou a ser construída no Cade. O primeiro foi em 2017, a pedido da Transilva Logística, transportadora que tem sede em Vitória (ES). A informação chegou ao site Livre Concorrência com exclusividade, na terça-feira (10). Waldélio de Carvalho dos Santos surge como o autor do pedido de “colaboração”, que também deverá ocorrer na Polícia Federal, Gaeco e Ministério Público Federal de São Bernardo do Campo.

O líder sindical enfrenta procedimentos investigatórios que envolvem, entre outras práticas, suposta participação no chamado cartel dos cegonheiros. Ele também aparece como investigado em outro procedimento do Gaeco de SBC (Ministério Público de São Paulo) por suposto envolvimento em crimes da mesma natureza, incluindo associação criminosa. Contatado pela reportagem, o advogado Rodrigo Ramos, defensor do Sintraveic-ES e do presidente Waldélio Santos, limitou-se a dizer que não pode se manifestar por conta do sigilo profissional, mas não negou o fato. Em várias oportunidades, Ramos tem ressaltado:

“Temos afirmado sempre que Waldélio está à disposição das autoridades para esclarecer todos os fatos e contribuir para que a verdade seja posta.

Em outras oportunidades, o advogado tem defendido ser necessário “fazer esse setor – o de transporte de veículos novos – se mover na direção correta”.

O Cade abriu inquérito administrativo em 2016 para apurar práticas de infrações à ordem econômica – formação de cartel – no setor de transporte de veículos novos após receber documento firmado pelo Sintraveic-ES denunciando pressão de transportadoras Brazul (grupo Sada) e Tegma, além da Transcar, na Bahia, sobre os associados, todos cegonheiros empresários. No documento, que não chegou a ser protocolado pela entidade por conta de um acordo até hoje não esclarecido, o sindicato patronal afirma que recebia ameaças de perda de vagas, caso seus integrantes não realizassem manifestações violentas contra a empresa Transilva, com a intenção de criar embaraços à transportadora capixaba com as montadoras e a consequente perda do serviço. O procedimento continua em andamento. Em 2018, a autoridade antitruste oficiou quase a totalidade das montadoras para que explicassem o sistema de escoamento da produção automobilística empregado.

Já em 17 de outubro de 2019, a Polícia Federal, após instaurar inquérito a pedido do Cade, deflagrou a Operação Pacto (foto de abertura) que teve origem no acordo de leniência firmado pela Transilva Logística. Foram realizadas, em conjunto com técnicos da autarquia antitruste e promotores de Justiça do Gaeco de São Bernardo do Campo, busca e apreensão nas sedes das transportadoras do grupo Sada e Tegma, além da Transcar e na própria sede do Sintraveic-ES. Centenas de documentos e equipamentos eletrônicos foram apreendidos pelos federais, que concluíram pelo indiciamento de 12 pessoas, entre elas, o presidente Waldelio dos Santos.

A exemplo do acordo anterior, o novo pedido de “colaboração” atribuído à defesa do presidente do Sintraveic-ES deve ser colocado sob sigilo pela autoridade antitruste. Waldélio Santos está a cerca de 15 anos no segmento. É profundo conhecedor do sistema de transporte de veículos novos. Participou de inúmeras rodadas de negociação. Certamente terá muito a contribuir para com o Cade em termos de comprovação documental, segundo revelou uma fonte.