Carvalho passou a defender organização criminosa que atacou por mais de 20 anos

Em um vídeo de pouco mais de quatro minutos, distribuído em 2020, o ex-líder sindical Afonso Rodrigues de Carvalho detalha como o cartel dos cegonheiros atua na compra de testemunhas e de apoiadores do sistema que controla mais de 90% do setor de transporte de veículos novos em todo o país. Ele afirma que foram oferecidas vagas ou outros benefícios em troca de acusação anônima que o envolveu no roubo de camionetas Hilux ocorrido no pátio da Brazul, em Gravataí (RS).

Desde que firmou acordo milionário com o político e empresário Vittorio Medioli, Afonso Rodrigues de Carvalho abandonou os argumentos que usou por mais de 20 anos de lutas contra o chamado cartel dos cegonheiros. Antigas demandas – como a defesa da livre concorrência, o fim da cobrança de ágio nos fretes de até 40% e até os sucessivos pedidos de condenação dos líderes da organização criminosa que controla mais de 90% do setor de transporte de veículos novos no país – passaram a fazer parte do passado do ex-sindicalista, mas não apagaram a história do setor. Carvalho afirma agora, para a estupefação de quem o acompanhou nas últimas duas décadas, que o cartel dos cegonheiros não existe, ou melhor, que é exercido por uma transportadora que possui cerca de minguados 5% do mercado bilionário.

Hoje o principal alvo de Carvalho é o empresário Sérgio Mário Gabardo, dono da Transportes Gabardo. Num segundo plano, surge o site Livre Concorrência, veículo que publicou dezenas de denúncias formuladas por Carvalho, sempre acompanhado de advogados. O empresário gaúcho, segundo o antigo parceiro, é responsável por tentar desestabilizar o setor. Carvalho também atribui a Gabardo participação em outros delitos. Todas as acusações beneficiam empresas do cartel dos cegonheiros para as quais o ex-sindicalista presta serviço atualmente como agregado, praticando fretes que assegurava serem de até 40% maiores.

Nem a Justiça conseguiu fazer com que Carvalho cesse os ataques ao ex-patrão. Desde 12 de abril 2021, vigora decisão judicial cujo conteúdo proíbe Carvalho de postar mensagens ofensivas e difamatórias à honra de Sérgio Mário Gabardo. O juiz Sandro Antônio da Silva, da 3ª Vara Cível da comarca de Canoas (RS), também determinou que o réu apagasse as mensagens com o mesmo teor já publicadas. Rodrigues vem usando as redes sociais para atacar o empresário gaúcho, após desentendimento comercial entre os dois.

Em agosto de 2021, a Justiça de Canoas (RS) decidiu aumentar em 15 vezes o valor da multa aplicada a Carvalho por descumprimento da decisão que o proibiu de divulgar mensagens denegrindo o grupo Gabardo e seu proprietário. Para cada evento, Carvalho será penalizado com a importância de R$ 15 mil, até o limite de R$ 100 mil. Isso não o impediu de seguir a campanha contra o empresário do Rio Grande do Sul.

Na terça-feira (17), a juíza Adriana Rosa Morozini, titular da 2ª Vara Cível da Comarca de Canoas (RS), mandou o Youtube retirar do ar duas entrevistas que Carvalho concedeu ao programa Fala Bahia News. Segundo a decisão da magistrada, o jornalista Everaldo Dantas, apresentador dos programas, acostados aos autos, não se limitou a relatar fatos e a indicar investigações oficiais ou processos judiciais já movidos em desfavor dos requerentes, “mas também imputou aos autores uma série de fatos delituosos, bem como utilizou expressões de baixo calão ao se referir aos demandantes”.

O ex-sindicalista vem atacando o Gabardo e a Transportes Gabardo com a mesma convicção que atacava Vitorio Medioli e as empresas dos grupos Sada, Tegma e o Sindicato Nacional dos Cegonheiros, o sinaceg. Abaixo, o site Livre Concorrência reproduz trechos de um vídeo em que Carvalho revela como o cartel compra apoios. Nas postagens, ele assegura que jamais se venderia ao esquema cujo comandante, segundo o próprio ex-líder sindical, a Polícia Federal e os Ministérios Públicos de São Paulo e Rio Grande do Sul, é o empresário Vittorio Medioli.

Aqui vale lembrar o contexto em que o vídeo foi gravado.

Sete meses antes de abandonar a luta que moveu por mais de duas décadas contra o cartel dos cegonheiros, Carvalho foi envolvido, por denúncia anônima, em roubo de caminhonetes Hilux, ocorrido em pátio da Brazul, no Rio Grande do Sul. 

Na madrugada de 28 de maio, cerca de 20 bandidos armados entraram na empresa do político e empresário Vittorio Medioli, renderam os funcionários e roubaram 15 caminhonetes zero-quilômetro da marca Toyota.

Ele foi associado ao crime por meio de uma ligação anônima. Acabou prestando depoimento ao delegado Márcio de Jesus Zachelo, em 6 de outubro. À época, ele atacou os atuais companheiros com a mesma ferocidade com que agora ataca Sérgio Mário Gabardo.

Carvalho chama cartel dos cegonheiros de máfia

“Queria dizer para a máfia que é muito baixo esse tipo de coisa. Achar que vão me envolver, uma pessoa que graças a Deus tem o nome limpo no mercado. Nunca me envolvi em coisa errada… Que eu estaria envolvido no roubo de caminhonetes Hilux dentro do pátio justamente da Brazul, empresa que faz parte do cartel dos cegonheiros. Eu sou testemunha do Gaeco e do Ministério Público Federal contra seus diretores e proprietário [Vittorio Medioli].”

Nunca precisei de dinheiro de máfia nem de cartel nenhum

“Infelizmente vocês foram muito fracos, em querer envolver o nome de uma pessoa que é testemunha contra todo o cartel. E que vocês não conseguiram comprar até hoje. Já compraram vários sindicatos. Já cooptaram sindicatos no Rio Grande do Sul, no Paraná e em outros estados, junto com o Sinaceg, de São Bernardo, que faz grupo do elo do cartel. Querer envolver uma pessoas que vocês não conseguiram comprar até hoje e não vão comprar, porque eu não tenho preço. Eu não me vendo. Eu tenho honestidade, tudo que eu conquistei foi com o meu trabalho. Eu corri atrás para conquistar as minhas coisas. Nunca precisei de dinheiro de máfia nem de cartel nenhum. Graças a Deus eu os combato. Sou testemunha do Ministério Público Federal, do Gaeco e da Polícia Federal contra vocês. A Justiça está aí e vai esclarecer os fatos todos.”

“Não faço parte de conluio de gente suja”

“Porque eu não tenho medo. Vocês são covardes. Já queimaram muitas carretas de nossos associados. Já botaram fogo em várias carretas de terceiros aqui da Gabardo. Vocês quando não conseguem a carga do jeito que vocês querem, vocês querem tomar na marra. Deixar um recado bem claro para vocês. A mim vocês nunca compraram e não vão comprar. Eu não me vendo. Não faço parte de conluio de gente suja. E vocês são sujos, desonestos. Vocês jogam sujo! E vou sempre combatê-los através do Ministério Público Federal, do Gaeco e da Polícia Federal. Sempre serei testemunha contra todos vocês.”

Vagas para comprar aliados

“Vocês devem ter dado uma vaga, um benefício. É assim que vocês fazem para comprar as pessoas. Mas a mim vocês podem esquecer. Comigo você não têm acordo. Sempre irei testemunhar contra vocês todos, todos. E agora vou entrar com um processo contra a própria Brazul, porque o roubo foi na Brazul e vocês incluíram meu nome no roubo dessas caminhonetes. Vocês vão ter que provar, tanto a Brazul como as pessoas qu vocês pagaram para fazer isso. Beleza? Estarei sempre firme combatendo a todos vocês, sem medo nenhum.”