Acordo entre testemunha e Medioli pode ter envolvido mais de R$ 30 milhões

O chamado cartel dos cegonheiros, ao que parece, não poupa esforços para comprar testemunhas que por anos denunciaram a organização criminosa que controla o setor de transporte de veículos novos e causa prejuízos superiores a R$ 3 bilhões por ano aos consumidores. Ao que tudo indica, a investida mais recente surgiu no início de 2021, com a mudança de posição do ex-líder sindical Afonso Rodrigues de Carvalho, após reunião de 1h40min no gabinete do prefeito municipal de Betim (MG) e proprietário do grupo Sada, Vittorio Medioli, divulgada pelo próprio Carvalho em vídeo postado em rede social.

As cobiçadas vagas de transportador (cegonheiro), que segundo revelou um empresário que tem o nome protegido, estão avaliadas entre R$ 1 milhão e R$ 3,5 milhões cada uma, não é para qualquer um. Para ingressar no bilionário mercado de transporte de veículos zero-quilômetro é preciso, antes de mais nada, excelente relacionamento com o chamado cartel dos cegonheiros, uma organização criminosa que controla o segmento com mãos de ferro, segundo o Ministério Público Federal, Gaeco (SBC) e Polícia Federal. Outra alternativa foi a encontrada pelo ex-líder sindical Afonso Rodrigues de Carvalho que denunciou por quase 20 anos a existência do cartel – que impede o ingresso de novos agentes no mercado a qualquer custo. No final de janeiro de 2021, Carvalho decidiu mudar de lado após fazer acordo em queixa-crime com o proprietário do grupo Sada, Vittorio Medioli. Logo em seguida à formalização do acordo em juízo, que envolveu testemunha de ação penal movida pelo Gaeco e réu no mesmo processo, Carvalho já conta bravata de estar administrando uma empresa com “12 vagas” e se vangloria de ter vendido outras quatro vagas, o que demonstra um negócio que pode ter envolvido mais de R$ 32 milhões, tomando-se por base o valor médio de R$ 2 milhões por vaga.

Após a referida formalização do acordo com Medioli, Carvalho deu baixa na empresa Magayver Transportes, a qual foi proprietário desde maio de 2005. Em abril de 2021, surgiu a Transrdc Transportes, de propriedade da cunhada de Carvalho. Logo em seguida, segundo documentos conseguidos com exclusividade pelo site Livre Concorrência, o filho dele, Richard Deken Carvalho, assumiu a titularidade da empresa. Os negócios milionários passaram a ser concentrados na Transrdc, empresa que Carvalho assumiu oficialmente a administração. Em conversas por aplicativo com outro empresário do setor de transporte de veículos novos, que tem o nome preservado, o ex-líder sindical afirma:

”Não conheço nem uma das filhas do Medioli. Estive com ele [Medioli] umas vezes pra tratar de umas ações. E as vagas que era pra mim eu vendi pra outra pessoa e estou administrando uma empresa com 12 vagas, um salário fixo dá pra ver.”

Recentemente (28.07.2021), um motorista da Transrdc, que tem seu nome preservado, prestou depoimento no Deic-SBC, afirmando que “Carvalho é sócio e administra a Transrdc, empresa que presta serviços para a Transmoreno, Tegma, Transzero e Dacunha”, as duas últimas de propriedade de Vittorio Medioli. Depoente, que compareceu, segundo cópia da oitiva, “de livre e espontânea vontade”, esteve assistido pelo advogado Mauro Leonardo de Brito Albuquerque Cunha, da Associação Nacional dos Transportadores Cegonheiros (Antransceg), presidida por Carvalho. A entidade, de acordo com seu presidente, conta com 3 mil associados, todos oriundos do Sindicato Nacional dos Cegonheiros, o Sinaceg e demais sindicatos regionais, inclusive do Espírito Santo. Estatutariamente a associação visa à defesa dos interesses dos cegonheiros-empresários, mas está disponibilizando assessoria jurídica até mesmo para motoristas contratados pelo regime CLT.

Ao site Livre Concorrência, Carvalho chegou a declarar:

“Se tu disser que ele [Medioli] me comprou, vais ter de provar. Agora, trabalho ele [Medioli] vai me dar”.

E ao que tudo indica, deu. Não só nas empresas do grupo Sada. A Transrdc, segundo o próprio novo administrador e seu motorista, possui vagas na Tegma – um dos alvos da Operação Pacto por participação ativa no chamado cartel dos cegonheiros. Após o acordo, Medioli comprou caminhões de Carvalho. Utilizou para a operação, a empresa Deva Veículos de propriedade do grupo Sada, que tem o empresário e político como administrador.

Há mais de quatro anos (20.12.2017), o deputado federal Pastor Eurico ocupou a tribuna da Câmara dos Deputados para manifestar sua opinião sobre o chamado cartel dos cegonheiros:

“Há uma verdadeira máfia que opera no Brasil, fato que denunciamos aqui. Ao denunciarmos, aparecem alguns defensores. Mas, antes, eu fui advertido de que esse assunto não iria à frente porque, segundo informações, esse sr. Medioli tem muito dinheiro – o camarada tem muito dinheiro! Ele compra autoridades, juízes e diz que até alguns parlamentares estão no bolso dele. Eis a interrogação: qual é o preço do deputado Pastor Eurico? Eu disse muito claro, como cristão que sou, que meu preço não era a moeda dele; meu preço foi pago pelo sangue de Jesus na cruz do calvário.”

O site Livre Concorrência procurou o empresário Vittorio Medioli, o Sinaceg, o ex-líder sindical e o Ministério Público de São Paulo. Carvalho tentou condicionar a resposta aos questionamentos feitos à veiculação de matéria cujo conteúdo é duvidoso, uma vez que busca atingir diretamente o empresário Sérgio Mário Gabardo, proprietário da Transportes Gabardo, a quem Carvalho considera publicamente como “inimigo número um”. A proposta foi rejeitada.

Medioli e o Sinaceg preferiram silenciar. Medioli se negou a informar quantas vagas de transportador o grupo Sada “concedeu” a Carvalho em troca do novo posicionamento. Sinaceg não quis responder sobre por qual motivo os cegonheiros-empresários necessitam duas entidades para defender seus interesses (Sinaceg e Antransceg). O Ministério Público paulista não se manifestou. Quanto ao site Livre Concorrência, acusado por Carvalho e Medioli como sendo “financiado pela Transportes Gabardo para denegrir a imagem de empresas concorrentes”, cabe destacar que a juíza titular da 4ª vara cível da comarca de Betim (MG), pensa diferente. Para desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, em ação movida contra o editor do site, jornalista Ivens Carús, acusado de “comercializar notícias”, o entendimento é idêntico, em processo já transitado em julgado. Todos concluíram que nosso conteúdo é jornalístico.