Possível investigação sobre ex-diretor causa desespero a advogados da Brazul

No vídeo que vazou da sede da Procuradoria da República em São Bernardo do Campo (SP), o procurador da República Steven Shuniti Zwicker e um analista do Ministério Público Federal revelam que advogados da Brazul temiam que oitiva sobre vazamento de dados sigilosos focasse nos vínculos de José Carlos Rodrigues, o Pernambuco, com Gilberto dos Santos Portugal, falecido em 2016 e homem de confiança de Vittorio Medioli.

Advogados da Brazul Transporte de Veículos (controlada pela Sada) movimentam-se intensamente para que as ações da empresa no passado – sobretudo as relações do seu ex-diretor Gilberto dos Santos Portugal com a queima de caminhões-cegonha – não se tornem escopo de investigação no Ministério Público Federal, como já ocorre na Polícia Federal e nos Ministérios Públicos do Rio Grande do Sul e de São Paulo. Em várias frentes, executivos da Brazul estão sendo investigados e processados por formação de cartel. Em vídeo de aproximadamente uma hora, gravado em 23 de março de 2022, o procurador da República Steven Shuniti Zwicker e um analista do Ministério Público Federal – cujo nome será preservado por questões de segurança do servidor – revelam que advogados da Brazul temiam que oitiva sobre possível vazamento de dados sigilosos oriundos da Operação Pacto focasse nos vínculos de José Carlos Rodrigues, o Pernambuco, com Portugal, homem de confiança de Vittorio Medioli.

Nos diálogos que o site Livre Concorrência teve acesso com exclusividade, o analista do MPF queixou-se ao procurador da quantidade de demandas protocoladas pelos representantes da Brazul:

“Agora eu entendi o desespero da Brazul em participar da oitiva. Eles [advogados da Brazul] estavam achando que era sobre uma declaração do Pernambuco referente ao Portugal.”

A declaração apontada pelo servidor do MPF refere-se ao momento em que Pernambuco procurou o MPF para mudar depoimento dado à Polícia Federal e à Justiça no âmbito do Inquérito 277, presidido pelo delegado da Polícia Federal Aldronei Antonio Pacheco Rodrigues. Na ocasião, Pernambuco confessou ter participado de um grupo que se especializou em incendiar caminhões-cegonha de transportadoras independentes – aquelas que não fazem parte do cartel dos cegonheiros. Sete anos depois, o delator mudou a versão do depoimento prestado. Sobre esse momento, o servidor do MPF afirmou que Pernambuco, quando mudou a versão, estava preocupado com a própria segurança. Nas palavras do analista, o delator teria dito ao mudar a versão dada em 2012:

“O Pernambuco quando entrou com essa denúncia [que teria sido coagido a dar o primeiro depoimento para um delegado da Polícia Federal do Rio Grande do Sul, em 2012], não estava preocupado com a declaração que ele fez.”

Segundo o analista, Pernambuco estava preocupado porque estavam querendo matá-lo.

O procurador acrescentou:

Ele [Portugal] está dentro dos fogos todos. Na época ele era tido como um dos caras mais abertos a recorrer a meios ilícitos para conseguir as coisas. De fato, depois que ele morreu as coisas deram uma acalmada nesse mercado. As coisas eram piores na época dele.”

O analista também reclamou:

“Advogados da Brazul não deixam a gente trabalhar. Levantei às 5 horas para preparar esse monte de perguntas ao jornalista.”

Ele acrescentou:

“Só ontem e hoje, respondi a 11 e-mails deles, principalmente desse dr. Rafael”.

O servidor entendeu ser até “vergonhosa” a participação dos advogados que desejavam tanto participar da oitiva, mas acabaram não fazendo nenhuma pergunta. Ele imitou a suposta reação dos advogados, como se fosse membro da banca:

“Caramba! Eles vão investigar as ações do Portugal!”

Na sequência, o procurador completou:

“Eu entendi aí o desespero todo [dos advogados da Brazul]. E provavelmente na hora em que eles percebem que o 292 não é isso tudo, apesar de tudo o que foi dito da Brazul. Então o advogado nem quer fazer muitas perguntas. Ele estava mais preocupado em como [os jornalistas do site Livre Concorrência] colocaram as mãos nos documentos da Operação Pacto do que qualquer outra coisa.”

Mais desespero
Em outra linha de frente, os advogados da Brazul já atacaram o Cade. Segundo nota publicada em jornal do próprio Vittorio Medioli, O Tempo, o órgão antitruste agiu de forma açodada e omitiu ou não informou à Polícia Federal a existência de “pelo menos sete conclusões que reconhecem a inexistência de infração à ordem econômica (cartel) por ausência de poder monopsônico em que as denunciadas atuam”. Os representantes da Brazul questionam o acordo de leniência firmado com o Cade, cuja investigação, a pedido da autoridade antitruste deu origem à Operação Pacto.

Sobre a Operação Pacto, eles escreveram no jornal O tempo:

“A ação policialesca teve efeito devastador e constrangedor às empresas e pessoas investigadas, em face à grande repercussão midiática negativa, e gerou irreparáveis perdas à imagem e aos negócios atingidos.”

Leia mais:

Empresas do Grupo Sada contestam acordo de leniência celebrado entre Cade e Transilva

Investigados fazem coro para intimidar Conselho, mas decisão está mantida

Incêndios criminosos foram financiados por executivo que integrou o grupo Sada

Polícia Federal indicia 12 pessoas por formação de cartel e associação criminosa no setor de transporte de veículos novos

Cegonheiro do cartel que delatou comparsas em incêndios criminosos tenta mudar depoimentos dados há seis anos à PF e a juiz gaúcho

Depoimento à Polícia Federal e à Justiça revela as entranhas do transporte de veículos novos – um setor cartelizado e dominado pela violência