Ex-executivo da Brazul estava “dentro de todos os fogos” de cegonheiras

Apesar da convicção e da comprovação das ameaças de morte que rondam o bilionário setor de transporte de veículos novos, o procurador da República Steven Shuniti Zwicker trabalha para tirar a credibilidade de depoimento prestado por empresário cegonheiro à Polícia Federal do Rio Grande do Sul. Sete anos após confessar participação em incêndios criminosos e revelar as entranhas de um setor cartelizado e dominado pela violência praticada por criminosos a serviço das grandes transportadoras e sindicatos, o delator José Carlos Rodrigues (Pernambuco) vem negando o que disse sobre os crimes praticados pelo cartel dos cegonheiros. Numa conversa privada que acabou vazando, o procurador mostra-se favorável à nova versão.

Uma possível falha técnica na unidade do Ministério Público Federal de São Bernardo do Campo (SP) proporcionou o vazamento de conversa privada envolvendo o procurador da República Steven Shuniti Zwicker (foto de abertura) e um dos analistas da unidade do MPF, que tem o nome preservado pela redação, por questões de segurança.  No vídeo de aproximadamente uma hora que o site Livre Concorrência teve acesso com exclusividade é mostrado diálogos ocorridos logo após a oitiva do jornalista Ivens Carús, realizada em 23 de março. Zwicker afirma que o ex-executivo da Brazul Transporte de Veículos (empresa do grupo Sada) Gilberto dos Santos Portugal, falecido em 2016, “estava dentro de todos os fogos” de caminhões-cegonha na época em que José Carlos Rodrigues, mais conhecido como Pernambuco, prestou depoimento à PF gaúcha, o que concede credibilidade ao primeiro depoimento prestado pelo delator. O MPF reconheceu a autenticidade do vídeo, e o procurador manifestou-se a respeito do caso. O advogado Rodrigo Ramos, defensor de Rodrigues, também se manifestou.

No depoimento original, Pernambuco confessou ter financiado e participado ativamente da queima de caminhões-cegonha. As informações revelaram as entranhas de um setor cartelizado e dominado pela violência praticada por criminosos a serviço das grandes transportadoras e sindicatos. O delator também contou às autoridades sobre a ação de membros da organização criminosa conhecida como Primeiro Comando da Capital (PCC) na intimidação de testemunhas. Ele deixou claro, também a um juiz, na presença de um representante do Ministério Público, que o ex-dirigente da Brazul, falecido em 2016, seria um dos financiadores do esquema sob o comando de Vittorio Medioli. Por último, revelou que os comparsas dele – todos colegas de profissão – foram beneficiados financeiramente com o assassinato do presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo. Ivan Demarch Tavella foi executado na sede da entidade com dois tiros na cabeça. O crime ocorreu em 20 de novembro de 2011 e até hoje os autores não foram responsabilizados.

O analista que participou da conversa vazada destacou que Pernambuco, quando prestou novo depoimento, em 2019, na Procuradoria da República de SBC,  não estava preocupado com o primeiro testemunho, mas com o risco de ser assassinado.

No depoimento dado à PF em 2012, Pernambuco também relatou que resolveu denunciar os “companheiros” quando ouviu que estavam prestes a planejar o assassinato de duas pessoas.

Mesmo diante das evidências que comprovam que Pernambuco falou a verdade no primeiro depoimento dado à PF do Rio Grande do Sul, principalmente quanto ao possível envolvimento do ex-executivo da Brazul, ao que tudo indica, dando ordens para incendiar caminhões-cegonha de empresas concorrentes e da ameaça de assassinatos, Zwicker adiantou ao analista – no mesmo vídeo – que pretende promover o arquivamento do procedimento tão logo encerrarem-se as oitivas.

“Francamente, se pensarmos em algo como falso testemunho… está tudo prescrito, vamos arquivar e encaminhar ofícios ao Gaeco, Cade e à Polícia Federal, informando que diante da investigação que fizemos, o depoimento do Pernambuco dado lá atrás, por conta do grande auê em torno dele, é imprestável. O dele e os demais.”

O procurador também revelou durante a conversa:

“Ele está [Gilberto Portugal] dentro dos fogos todos e na época era tido como um dos caras mais abertos a recorrer meios ilícitos para conseguir as coisas. De fato, depois que ele morreu, as coisas deram uma certa acalmada. Eram piores na época dele. Depois que ele morreu, deu pra sentir que as coisas tiveram algum grau de acalmada nesse setor, mas enfim.”

O representante do MPF fez um breve relato ao analista desde que entrou no caso dos cegonheiros, em 2015:

“Nessa época o Gilberto Portugal era vivo. Faleceu um pouco depois. Sua sucessão foi complicada. Era um desses empresários que centralizava tudo em torno dele. Tinha seus relacionamentos com a Sada e a Tegma. Parece que a Sada acabou comprando as participações da viúva, enfim. A empresa praticamente morreu com ele, porque ele não deixou nada de instrução.”

O procurador acrescentou que logo após a morte do então executivo da Brazul, “a gente pegou uns diretores – não citou nomes – bem crus e a gente conseguiu extrair algumas coisas deles, até a hora em que o Vittorio Medioli começou a botar advogados e barrar nosso acesso a esses diretores”.

BID da Volkswagen
Sobre a questão que envolve o setor de transporte de veículos novos, chamado cegonheiros, Zwicker admitiu não ter mais pretensão de “conseguir solução”:

“Estava com mais energia para virar essas coisas, no momento do BID da Volkswagen [em 2017], mas não deu certo. A gente sabe que não tem mocinhos. Os menos piores ainda são muito difíceis de confiar. Ivens Carús vem com essa posição toda e tal. É um bom jornalista, mas ele puxa pro lado que acha que vai vender mais jornal. Acho que até ele já sabe que as coisas não viram.”

Sem mencionar qualquer fato especificamente, o procurador ressalta, referindo-se ao site Livre Concorrência:

“As coisas são publicadas e quando a gente vai investigar a fundo vê que não é nada disso, enfim. Mas entendi o desespero deles todos – referindo-se a Brazul e ao Sinaceg – quanto à oitiva do jornalista, mas estavam mais preocupados em saber como ele botou as mãos nos documentos da Operação Pacto do que qualquer outra coisa”.

O procurador também tratou de vários outros procedimentos envolvendo o mesmo setor dos cegonheiros que estão em andamento na unidade do MPF de São Bernardo do Campo. Um deles, pelo menos, deverá encaminhar ofícios a respeito de aplicações de multas ao Cade e na área criminal, ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). O advogado Laércio Farina, representando o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) marcou reunião com Zwicker para tratar sobre documentos a serem encaminhados ao Cade. Ficou clara a intenção de não permitir o acesso da Brazul ao conteúdo.

Sobre parte do conteúdo das conversas, o advogado Rodrigo Ramos disse:

“Considerando a sensibilidade do caso, últimos acontecimentos e possíveis desdobramentos, a defesa de José Carlos Rodrigues, vulgo Pernambuco, prefere, por ora, não se manifestar. Desde já, reitera o absoluto respeito à imprensa e a liberdade de expressão.”

O site Livre Concorrência fez contato com os advogados Raphael Pires, da Cgmlaw, da Brazul Transporte de Veículos e com Rodrigo Raso, do escritório de advocacia Farina, que representa o Sinaceg, mas não obteve retorno até o fechamento da edição.