Carros avariados foram consertados e vendidos como intactos por concessionária da Renault em Roraima

Porta-voz do cartel dos cegonheiros – autor de denúncias de que carros zero-quilômetro das marcas Hyundai e Chery estão sofrendo avarias no transporte em caminhões-cegonha e reparados em concessionárias sem o conhecimento dos compradores – é acusado de prática idêntica: cobrar de motorista conserto por danos ocorridos no frete. Automóveis da marca Renault danificados foram vendidos como zero-quilômetro intactos pela Marlin Veículos, de Boa Vista (RR).

Ex-motorista da Transrdc, cujo administrador é o ex-líder sindical Afonso Rodrigues de Carvalho, afirmou ter sido pressionado para pagar o conserto de dois veículos zero-quilômetro danificados no frete entre a fábrica da Renault, localizada em São José dos Pinhais-PR, e a concessionária Marlin Veículos, de Boa Vista, em Roraima. O reparo em uma porta, em um dos automóveis, e no paralama e no capô de outro, custou ao carreteiro R$ 600. Cada reparo saiu por R$ 300, revelou Carlos Alberto Pereira Calisbino ao site Livre Concorrência. Os veículos foram entregues à concessionária em 8 de fevereiro, às 16h, conforme documentos apresentados (foto abaixo) e relato do motorista.

Desde que firmou acordo milionário com o político e empresário Vittorio Medioli, Carvalho passou a atacar sistematicamente a única transportadora de grande porte que não integra o cartel dos cegonheiros e para a qual trabalhou por mais de duas décadas. O conserto de veículos novos danificados no transporte realizado por caminhões-cegonha e vendidos aos consumidores como intactos é uma prática generalizada no setor. Estima-se que mais de 293 mil unidades tenham sido vendidas nessas condições em 2021. Para Carvalho, no entanto, a irregularidade é praticada apenas pela Transportadora Gabardo. As denúncias são usadas como argumento do cartel para retirar da empresa gaúcha as cargas da Hyundai e Chery.

Na semana passada, um motorista revelou que a prática também é adotada pelo autor das denúncias e administrador da Transrdc. A Transrdc opera como agregada às transportadoras que controlam mais de 90% dos fretes de veículos novos no país. O profissional, com 17 anos de experiência como motorista, contou o que ocorreu em fevereiro deste ano:

“Dos seis veículos que transportei, dois foram avariados. Dois carros azuis igualzinhos. Um na porta e outro perto do farol. Esses dois foram anotados no conhecimento. Não foi sublimado no conhecimento a gravidade da avaria, pois eu paguei para não ser sublimado.”

Ele acrescentou:

“Não foi colocada a gravidade, só foi colocada a avaria. O conferente disse que tinha que colocar no conhecimento porque teria que fazer a porta toda, o para-lama e o capô todo.”

Segundo declaração do motorista, funcionário da concessionária cobrou R$ 600 para consertar para-lama, capô e porta de dois veículos transportador pela Transrdc. O valor foi descontado da comissão do carreteiro.

Calisbino disse que preferiu pagar o conserto a levar uma suspensão que pode chegar a três meses. A empresa responsável pelo frete é agregada à Transmoreno, adquirida pela Júlio Simões em 2020. Sobre as despesas com os reparos, o motorista disse ter pagado R$ 600,00 ao conferente da concessionária com o cartão corporativo da Transrdc (foto abaixo). O cartão também servia para receber as comissões dos fretes pagas pela Transrdc. Os serviços de lanternagem foram descontados dos valores que Calisbino deveria receber.

O motorista trabalhara para Carvalho antes do acordo feito com Medioli, dono do grupo Sada. Depois foi para a Transrdc, em abril de 2021, onde ficou até março de 2022, quando foi demitido. Os reparos em veículos zero-quilômetro, posteriormente vendidos como intactos, só entrou na pauta do site Livre Concorrência quando constatou-se que as denúncias sobre esse tipo de prática passaram a ser usadas como argumento de venda para o cartel se expandir e voltar a deter a totalidade do bilionário mercado.

O site Livre Concorrência esclarece que é contra qualquer ação que resulte em prejuízo ao consumidor e defende uma investigação profunda por parte das autoridades constituídas que atinja todas as concessionárias do país. Isso vale para consertos de avarias em carros novos sem o conhecimento do comprador, assim como para os crimes e irregularidades praticados pelo cartel dos cegonheiros: abuso de poder econômico, eliminação da concorrência, fixação artificial de preços, violência e divisão de mercado.

A redação tentou ouvir a manifestação de Carvalho e de Luiz Geraldo Tavora Araújo, que aparece como administrador da Marlin Veículos (RR), mas não obteve retorno. A assessoria de imprensa da Renault considerou as informações passadas pelo site como “muito genérica, para que possamos dar uma resposta da forma mais precisa possível”. Eles responderam:

“Necessitamos de mais informações. Qual veículo passou por tal procedimento, em qual concessionária, em qual data.”

Um novo contato foi tentado, já que tais informações já constavam da correspondência eletrônica inicial, sendo acrescentada a data dos acontecimentos.

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