Advogado de Betim comprou vaga na Transmoreno por R$ 1,5 milhão há 12 anos

Cópias de contratos encontradas por policiais federais no âmbito da Operação Ciconia comprovam transferências de vagas de transportadores. Único documento que contém valor impresso mostra quanto valia uma vaga há mais de uma década para transportar veículo novo num sistema cartelizado. Um empresário do Ceará afirma que valores atualmente podem chegar aos R$ 4 milhões.

De São Paulo

(Atualizada em 01.07.2024, às 9h55min, por conter erro de informação já corrigido*.)

O comércio de venda e aluguel de vagas no bilionário setor de transporte de veículos novos, que sempre foi negado por transportadoras investigadas e pelo próprio Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), comprova-se a cada dia que passa. Documentos apreendidos pela Polícia Federal, Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco-SBC) e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) provam o que há anos vem sendo denunciado e utilizado para a cooptação de cegonheiros-empresários desde os anos 2000.

Em 2016, para controlar um sindicato no Paraná, foram oferecidas por integrantes do Sinaceg 60 vagas distribuídas a quem quisesse aderir ao sistema cartelizante. Algumas delas, numa espécie de “dança das vagas”, retornaram e foram parar, segundo Carlos Roberto Porto, ex-presidente do Sintravec, nas empresas de José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho, atual presidente do Sinaceg, e de Jaime Ferreira dos Santos, ex-presidente do Sinaceg e atual presidente da Federação Interestadual dos Cegonheiros (Feiceg), que tem como vice-presidente, Ronaldo Marques da Silva, filho de Boizinho. Vários contratos sem valores expressos também foram apreendidos pelos federais, além de 13 cheques no valor de R$ 100 mil cada um. Todos na sede da entidade patronal e na residência do presidente.

Os fatos mais recentes trazidos pelos federais, em documento que o site Livre Concorrência teve acesso com exclusividade, estão na apreensão de contratos de compra e venda de vagas nas empresas investigadas, Tegma, Brazul e Autoport, além de um lote de 13 cheques preenchidos pela Transmarimbondo Transportes, no valor de R$ 100 mil cada um, o que totaliza R$ 1,3 milhão. A empresa é de propriedade do presidente do Sinaceg, o Boizinho. Na análise, os agentes revelam não ser possível afirmar que os documentos se referem a compra de vaga, mas ressaltam que o valor “é bem próximo”  ao que consta em anúncio sobre venda de vaga na Brazul (foto abaixo), encontrado no telefone de Geneci Pereira dos Santos* – da Brazul e também investigado na operação Ciconia. A vaga integra a chamada linha norte longa da Brazul, no valor de R$ 1,4 milhão. Nos documentos de cessão (contratos e distratos), não há menção de valor, à exceção do encontrado sobre a frota 241 da Transmoreno – a transportadora foi adquirida pela Julio Simões no ano de 2020).

O contrato de venda de vaga na Transmoreno foi firmado em 7 de dezembro de 2012 pela empresa Silvio Bispo Romão Transportes, que passou os direitos de cessão à empresa Rodoviário Lemos Limitada, tendo como responsável, o advogado Geraldo Antunes da Conceição, cujo registro está na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) seccional de Minas Gerais. O documento refere-se à frota (vaga) 241 e teve o valor fixado em R$ 1,5 milhão, sendo pagos com cheque de R$ 300 mil em 17 de dezembro de 2012 e o saldo de R$ 1,2 milhão com um segundo cheque datado para 17 de março de 2013, de acordo com  documento apreendido. A reportagem levantou que o endereço da empresa Rodoviário Lemos, em Betim (MG), é o mesmo indicado pelo advogado Conceição, em seu registro na OAB mineira.

Dentre os documentos apreendidos pelos federais na residência do presidente do Sinaceg, sem qualquer valor especificado a respeito das transações, a reportagem encontrou contrato das empresas abaixo:

  • Transportadora Realeza para Transmarimbondo, sobre a frota 5829 da Tegma.
  • Transportadora Realeza para RRDA Marimbondo Transportes, sobre a frota 58924 da Tegma (locação por 20% do faturamento mensal a ser pago quinzenalmente).
  • RRDA Marimbondo Transportes para LGSM Transportes, sobre frota 52803 da Tegma.
  • J.B.G dos Santos para Marimbondo Transportes e Serviços, sobre a frota 1136 da Autoport.
  • Marimbondo Transportes para Transportes RR Paes, sobre a frota 1136 da Autoport.
  • Trans-calo Logística e Transportes e Transmarimbondo Transportes (distrato) sobre frota 783 da Brazul.
  • Transmarimbondo Transportes e EHS Transportes, sobre frota 2517 da Brazul.
  • Marimbondo Transportes e Rubens Pittondo Transportes, sobre frota  54937 da Tegma.
  • Marimbondo Transportes para DNA Batista Transportes, sobre frota 2599 da Brazul (oriunda da antiga TNorte, adquirida pelo grupo Sada).

Cooptação de 2016

De acordo com documentos enviados à reportagem pelo ex-presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Paraná (Sintravec), Carlos Roberto Porto, que se queixa de ter sido destituído do cargo “numa assembleia falsa, para o Sinaceg assumir o controle do Sintravec, foram oferecidas 60 frotas (vagas) por meio de acordo firmado com o Ricardo Rossetti e o Inácio João dos Santos”. Segundo Porto, esses dois cegonheiros-empresários “dividiram entre eles essas frotas, deixando a maioria dos terceiros que operavam na Transportes Gabardo a ver navios. Ele acrescenta:

Inclusive eu, após ter sido excluído do sindicato pela falsa assembleia.”

No material, aparecem correspondências eletrônicas (e-mails) transferindo a frota 2508 da Brazul e da Transportes Munhoz para a Transmarimbondo (de Boizinho). Essa frota mudou para o número 2583. 

Frota 2502 da Transnitro (de João Inácio dos Santos, que assassinou a ex-mulher e suicidou-se logo após) foi transferida para Esly Batista e outros, transformando-se na frota de número 2547. Uma nova frota, 2511, aparece destinada a Transmarimbondo. Já a frota 741 da Transnitro, foi transferida para Jaime F dos Santos (transportadora de Jaime Ferreira dos Santos, ex-presidente do Sinaceg e presidente da Feiceg), transformando-se na frota 761.

A reportagem tentou contato com o telefone cadastrado na OAB-MG do advogado Geraldo Antunes da Conceição, mas não obteve retorno até a publicação.

Vagas milionárias

Foi em 2022 que o empresário Luiz Fernando Frota Aragão, da Aragão Caminhões, que tem sede no Ceará, postou em redes sociais, vídeo produzido, segundo ele, na sede do Sinaceg em São Bernardo do Campo. À reportagem do site Livre Concorrência, Aragão chegou a mencionar que não se sentia “confortável” em falar sobre o assunto, depois de ter deletado a publicação. O material informa que as vagas eram vendidas entre R$ 1 milhão e R$ 4 milhões, atribuindo a valorização à organização dos cegonheiros no Sinaceg. Recentemente, o empresário não quis falar com a reportagem.

*Diferente do que informamos na primeira edição desta matéria, publicada à 0h02 de segunda-feira (1º), Geneci Pereira dos Santos, gerente da Brazul (grupo Sada), não é réu no processo decorrente da Operação Pacto (2019). O executivo aparece como investigado na Operação Ciconia, deflagrada em 29 de agosto de 2023. Ambas apuram supostos crimes praticados pelo chamado cartel dos cegonheiros.

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Um comentário sobre "Advogado de Betim comprou vaga na Transmoreno por R$ 1,5 milhão há 12 anos"

  1. LUIZ CARLOS BEZERRA disse:

    POIS É, NOBRES AMIGOS QUE SEMPRE ACOMPANHAM ESSAS BRILHANTES MATÉRIAS, EDITADAS NESSE PORTAL, DIGNO DE ELOGIOS.
    NA MINHA OPINIÃO, ESSE SINACEG, QUE SE INTITULA INCONSTITUCIONALMENTE COMO “NACIONAL”, INVADIU VÁRIOS OUTROS ESTADOS DA NOSSA FEDERAÇÃO, MONTANDO OUTROS SINDICATOS, COM OUTROS NOMES, MAS SEUS LÍDERES SÃO OS MESMOS, OU SEUS PARENTES. MESMO JÁ EXISTINDO UM OUTRO SINDICATO NOS ESTADOS INVADIDOS.
    DA MESMA FORMA QUE A JUSTIÇA MANDOU FECHAR O ANTIGO, DENOMINADO COMO “SINDICAM”, ABRIRAM ESSE NOVO ACIMA, DENOMINADO COMO “SINACEG”. A JUSTIÇA JÁ DEVERIA TER MANDADO FECHAR TAMBÉM ESSE SINDICATO, POIS OS CRIMES CONSTITUCIONAIS QUE ELES TEM PRATICADO EM NOSSA NAÇÃO, SÃO INCALCULÁVEIS, HAJA VISTA SEREM OS COMANDANTES DO “CARTEL DOS CEGONHEIROS”!
    COMO JÁ MENCIONEI ANTERIORMENTE, TODAS AS TRANSPORTADORAS DE VEÍCULOS, QUE INTEGRAM ESSE “CARTEL”, JÁ DEVERIAM TER SEUS RESPECTIVOS “ALVARÁS DE FUNCIONAMENTO” CANCELADOS HÁ MUITO TEMPO, TAMBÉM.
    O QUE MAIS COMENTAR?
    AGORA BASTA AGUARDARMOS AS NOVAS AÇÕES DOS INVESTIGADORES DESSAS CAUSAS, PARA ASSIM SALVAREM NOSSA NAÇÃO BRASILEIRA!
    PONTO FINAL PARA TODOS ESSES VÂNDALOS MESMO!

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