Após anunciar término de contrato com a Tegma, BMW recua da concorrência e mantém alinhamento com o cartel dos cegonheiros

A montadora optou por manter o prejuízo de R$ 415,9 milhões (ágio no transporte por falta de concorrência) repassado integralmente aos compradores de veículos da marca alemã nos últimos cinco anos. A decisão comprova o controle absoluto das cargas da maioria dos fabricantes de veículos por parte da organização criminosa que comanda o setor com a conivência incontestável das montadoras. A Polícia Federal já afirmou que o cartel dos cegonheiros atua na BMW, além de outras montadoras. 

Especial – De Santa Catarina

Inquérito Administrativo em andamento no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), duas ações penais ajuizadas pelo Grupo de Atuação Especializado de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Bernardo do Campo (SP), buscas e apreensões de centenas de documentos feitas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Pacto. Condenação de quatro réus – incluindo a General Motors do Brasil – por formação de cartel. Nada disso detém integrantes do cartel dos cegonheiros que se mobilizam e impedem o exercício da livre concorrência pela pressão, com a conivência da maioria das montadoras. A anunciada contratação da Ceva Logistcs (ex-Gefco) no lugar da Tegma Gestão Logística – uma das empresas vasculhadas pela Polícia Federal na Operação Pacto – que deveria iniciar as operações no dia 2 de janeiro, foi suspensa. Com ela, a empresa gaúcha Transportes Gabardo, que tem sede em Porto Alegre, contratada pela Ceva para escoar a produção, levou o segundo golpe do cartel dos cegonheiros no mesmo ano e está à espera de solução. Em outubro do ano passado, foi a vez da FCA-Fiat-Jeep (Stellantis) excluir a mesma transportadora do escoamento de parte da produção destinada à exportação. Cegonheiros-empresários integrantes do cartel, pressionaram e os carregamentos foram suspensos, comprovando conivência também na Stellantis.

Cerca de 40 caminhões de cegonheiros-empresários iniciaram mobilização de paralisação no transporte de veículos da BMW na planta de Araquari (SC) em meados de dezembro do ano passado. O motivo foi represália contra a decisão da montadora de romper o contrato com a operadora Tegma. A pressão surtiu efeito imediato. Antes mesmo do dia 2 de janeiro, quando a Ceva Logistics deveria assumir a logística e a Transportes Gabardo iniciar o transporte dos veículos, houve a suspensão da decisão. Uma fonte afirmou ao site Livre Concorrência que seria por um período de três meses. Outra, garante que é definitiva. A lógica de atuação do cartel dos cegonheiros com a conivência das montadoras indica que a segunda fonte está certa. Exemplo claro ocorreu na Volkswagen, em 2017.

A BMW, por meio da Assessoria de Imprensa, insiste em afirmar que “a situação é uma reação ao término de contrato com o fornecedor (Tegma), previamente planejado e acordado”. Mas a realidade indica o contrário. Uma equipe de repórteres do Livre Concorrência esteve em Araquari no último dia 5 e constatou que caminhões-cegonha agregados à Tegma mantêm movimentação, carregados de veículos da marca BMW.

Procurada, a Tegma informou à reportagem que “não comenta contratos com clientes”. De sua parte, o Cade, que investiga há seis anos práticas de infrações à ordem econômica no setor de transporte de veículos novos em inquérito administrativo, argumentou que “o caso não resultou em abertura de inquérito ou processo administrativo, e, portanto, a Superintendência-Geral não tem informações a acrescentar”.

A reportagem também tentou ouvir o escritório de advocacia, especializado em direito concorrencial que representa a BMW no inquérito administrativo em andamento no Cade, mas não obteve retorno. O mesmo ocorreu com o Ministério Público de São Paulo, com a Transportes Gabardo e com a Ceva (ex-Gefco). Posição idêntica teve a Associação Brasileira dos Concessionários BMW, que preferiu não responder.

Operação Pacto
Em 8 de setembro do ano passado, o site Livre Concorrência revelou, com exclusividade, parte das conclusões a que chegaram policiais federais após análise do farto material apreendido na sede das transportadoras pertencentes aos grupos Tegma e Sada durante as diligências criminais da Operação Pacto. Segundo os investigadores, o sistema cartelizado no setor de transporte de veículos novos vai muito além do mostrado pelo acordo de leniência que envolveu algumas transportadoras da marca Kia Motors, firmado pela Transilva Logística, com sede em Vitória (ES). Há provas, de acordo com os federais, de que a atuação concertada chegou à Volkswagen, Fiat, BMW, Ford, Hyundai (Piracicaba), Honda e à já condenada – por formação de cartel no mesmo segmento – General Motors, além da importadora Lifan.

Vários documentos chamaram a atenção dos policiais federais que analisaram uma por uma das peças. Segundo eles, “em diversos momentos ficou cabalmente comprovado a forma de trabalho dessas empresas de transporte que funcionam como se fossem uma só”.

De acordo com o trabalho intitulado “Comentários Finais”, também ficou demonstrado “o quão é promíscua a relação entre empresas de transporte de carros zero-quilômetro (cegonheiros)“. Do conteúdo se extrai ainda as considerações de que ”pode-se inferir que o cartel continua suas operações corriqueiras de ajuste de preços, fidelização de clientes, combinação de não-agressão entre as empresas participantes e loteamento nacional em áreas de atuação divididas, como domínios dessas mesmas empresas”. Os federais advertiram:

“Todos os documentos não deixam dúvidas sobre a existência e atuação do cartel, inclusive nos anos de 2017, 2018 e 2019, estendendo-se a outras montadoras. O comportamento é “típico de organizações criminosas.”

Prejuízo a compradores de veículos BMW
Quem comprou veículo zero quilômetro da marca BMW nos últimos cinco anos ajudou a pagar o ágio cobrado pelos integrantes do cartel dos cegonheiros de R$ 415.918.451,28. O valor é fruto da falta de concorrência o setor, e foi mensurado (na época de 25% a mais por falta de concorrência) pelo Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul na Ação Civil Pública que condenou a General Motors do Brasil, o seu diretor Luiz Moan Yabiku Júnior, o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (SInaceg) e a Associação Nacional das Empresas Transportadoras de Veículos (ANTV). Durante da deflagração da Operação Pacto, Polícia Federal, Gaeco (SBC) e Cade afirmaram que esse ágio é de até 40%, 15 pontos percentuais a mais do que o calculado pelo MPF-RS. Nenhum dos réus contestou a equação.

Somente em 2022, compradores brasileiros – não são computados dados sobre os veículos exportados – dos 14.545 veículos da marca BMW amargaram um prejuízo de R$ 90.581.250,51 pagos a mais a título de transporte. O cartel dos cegonheiros arrecadou, a título de frete, na BMW, R$ 226.453.126,29. Nos últimos cinco anos, a organização criminosa – segundo o Gaeco e Polícia Federal – arrecadaram nada menos do que R$ 1.039.796.128,21 no transporte dos 69.392 veículos BMW comercializados no mercado nacional.

Prejuízo de R$ 415,9 milhões imposto pelo cartel dos cegonheiros à montadora
é integralmente repassado ao consumidor

AnoUnidades vendidasValor pago pelo freteÁgio
202214.545R$ 226,4 milhõesR$ 90,5 milhões
202115.470R$ 232,5 milhõesR$ 93 milhões
202013.327R$ 184,4 milhõesR$ 73,7 milhões
201913.142R$ 211,2 milhõesR$ 84,5 milhões
201812.908R$ 185 milhõesR$ 74 milhões
Totais69.392R$ 1.039 bilhãoR$ 415,9 milhões

(Fotos – exclusivo site Livre Concorrência. Proibida reprodução sem autorização da Redação)

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2 comentários sobre "Após anunciar término de contrato com a Tegma, BMW recua da concorrência e mantém alinhamento com o cartel dos cegonheiros"

  1. LUIZ CARLOS BEZERRA disse:

    POIS É, NOBRES AMIGOS QUE SEMPRE ACOMPANHAM ESSAS BRILHANTES MATÉRIAS DESSE PORTAL LÍCITO EM SUAS REPORTAGENS ENTÃO EXPOSTAS.
    SÓ NÃO VÊ ISSO QUEM NÃO QUER ENXERGAR MESMO. ESSE CARTEL CRIMINOSO DOS CEGONHEIROS SEMPRE DOMINOU O TRANSPORTE DE VEÍCULOS NOVOS, PRODUZIDOS NAS PLANTAS DO PAÍS, SEM PERMITIR QUE FOSSEM CUMPRIDAS AS DETERMINAÇÕES CONSTITUCIONAIS DA LIVRE CONCORRÊNCIA.
    DESSA FORMA, AS DEMAIS TRANSPORTADORAS DE VEÍCULOS, QUE SE ATREVERAM A COBRAR DAS MONTADORAS, VALORES MELHORES, SEM CAUSAR DANOS AOS REAIS CONSUMIDORES, SEMPRE FORAM PREJUDICADAS, POIS ESSA ORGANIZAÇÃO PERIGOSA, INCENDEIA AS CARRETAS CEGONHAS DOS CONCORRENTES, CAUSANDO SÉRIOS PREJUÍZOS AS MONTADORAS TAMBÉM.
    DEVIDO A FALTA DE AÇÕES FUNDAMENTAIS DA JUSTIÇA DESSE NOSSO PAÍS, ELES CONTINUAM COAGINDO E FORÇANDO AS RESPECTIVAS MONTADORAS, A SÓ TRABALHAREM NO SEGUIMENTO, COM AS TRANSPORTADORAS DO CARTEL.
    UM VERDADEIRO ABSURDO!
    ATÉ ONDE O BRASIL VAI FICAR REFÉM DESSA FACÇÃO CRIMINOSA?
    SALVEM O NOSSO PAÍS, SRS. JUÍZES DE DIREITO!
    BASTA CUMPRIREM AS LEIS E, EXTERMINEM ESSE CARTEL, IMEDIATAMENTE!
    NADA MAIS A COMENTAR!

  2. Caio disse:

    Cada dia fico mais decepcionado. Sou cegonheiro há mais de 30 anos. Tenho segundo grau completo, mas ver nossos dirigentes sem nem o primário completo… graças a meus estudos, hoje tenho uma pequena frota de 4 conjuntos. Os dirigentes usam do sindicato para interesses pessoais e políticos. Só fica o sentimento de injustiça e desigualdade deste pais. Esses dias recebi mais mensagens mostrando a lista de frotas de conjuntos do presidente do sindicato que conheci desde o inicio e nunca entendi como conseguiu tudo o que tem. Queria sujgrir aos jornalistas desse site para entrevistar o presidente do sindicato para ele explicar como conseguiu tudo que tem.

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