CEO da Volkswagen nega existência de ágio no transporte de veículos novos

Declaração contraria conclusões da Polícia Federal no âmbito da Operação Pacto, documento da própria montadora e até a lei de oferta e demanda, no momento em que as fábricas da marca estão com os pátios lotados de veículos e, segundo ele reconhece, não existem caminhões-cegonha disponíveis para realizar os fretes.

De São Paulo

O CEO da Volkswagen do Brasil, Ciro Possobom, contrariou pelo menos duas conclusões da Polícia Federal, Gaeco e Cade, no âmbito da Operação Pacto, ao afirmar que não tem ocorrido sobrepreço no valor dos fretes contratados pela montadora. A declaração – dada ao repórter Eduardo Sodré, da Folha de São Paulo – também vai de encontro ao conteúdo de petição da própria marca protocolada na Justiça de São Paulo, na qual a montadora denunciou o chamado cartel dos cegonheiros por impedir a contratação de “novos prestadores de serviços com melhores condições técnicas e financeiras”. Por último, a afirmação fere a lei da oferta e demanda. O executivo reconhece a dificuldade em conseguir cegonhas para transportar os veículos novos que abarrotam os pátios das fábricas de São Bernardo do Campo (SP), Taubaté (SP) e São José dos Pinhais (PR), mas nega que haja “ágio” para atender essa demanda ou no transporte regular da marca. A reportagem fez alguns questionamentos à Volkswagen, que preferiu não se manifestar.

Em matéria publicada pelo jornal Folha de São – sobre a escassez de caminhões-cegonha para transportar o volume de carros acumulados nos pátios da montadora diante da retomada das vendas para empresas – o CEO da VW reconhece:

“Teremos um esquema especial para distribuição, que demanda um volume muito grande de cegonheiros, mas está difícil.”

O obstáculo, segundo ele, é agravado pela disputa entre diferentes montadoras pelos serviços de transporte de veículos novos. Aqui vale uma observação: Mais de 90% das cargas desse setor no Brasil são controladas, inclusive com o uso de violência, pelo chamado cartel dos cegonheiros. Essa organização criminosa impede a entrada de novos operadores no segmento.

Apesar da carência de cegonhas admitida pelo executivo (pelo menos no pequeno universo de prestadores contratados pela VW, a maioria pertencente ao grupo Sada), Possobom acrescentou que não tem ocorrido sobrepreço no valor do frete, mesmo com a dificuldade de conseguir cegonhas disponíveis para transportar um volume tão grande de automóveis.

A afirmação não está de acordo com as conclusões da Polícia Federal, Cade, e Gaeco, no âmbito da Operação Pacto. Em entrevista coletiva após mais de um ano de investigação, o delegado da Polícia Federal Rodrigo Sanfurgo, da Delegacia de Repressões a Crimes Fazendários em São Paulo, revelou que o esquema imposto ao bilionário setor de transporte de veículos novos consiste na divisão do mercado (por pelo menos quatro grandes transportadoras), fixação artificial de preço dos fretes acima dos valores praticados no mercado e eliminação da concorrência.

O inquérito, segundo Sanfurgo, revelou que o preço cobrado a mais das montadoras pode chegar a 40%. O percentual é repassado integralmente aos consumidores. A coletiva foi concedida na manhã em que as sedes das transportadoras Tegma e as do grupo Sada, em São Bernardo do Campo, da Trasncar, na Bahia, e do escritório do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo (SIntraveic), no Espírito Santo, foram vasculhados por agentes munidos de mandados judiciais.

Quase quatro anos depois de deflagrada a Operação Pacto, o CEO da Volks afirma que não existe sobrepreço. Vale ressaltar que a Volkswagen foi citada nominalmente nas conclusões da PF como uma das sete montadoras instaladas no Brasil sob a influência do cartel: Volkswagen, Fiat, BMW, Ford, Hyundai (Piracicaba), Honda e à já condenada – por formação de cartel no mesmo segmento – General Motors, além da importadora Lifan.

Ao afirmar que não existe ágio, o CEO da VW assume a defesa do cartel dos cegonheiros e se opõe a outra conclusão da Polícia Federal: a de que as montadoras são coagidas a participar do esquema. A conduta da montadora, como se pode concluir, atenta contra a livre concorrência. A postura confirma as fortes evidências de isolamento e discriminação de transportadoras independentes pela indústria automobilística juntadas nos autos da ação civil pública que culminou na condenação de quatro réus (GM, Sinaceg e ANTV, além de um diretor da montadora) julgados por formação de cartel pela Justiça Federal do Rio Grande do Sul.

A declaração de Possobom à Folha desconsidera ainda um documento da Volkswagen protocolado na Justiça de São Paulo. Em processo para garantir os acessos à fabrica de São Bernardo do Campo, bloqueados por cegonheiros-empresários em 2017 (foto de abertura), quatro advogados da montadora revelaram mobilização do cartel para impedir que montadora contratasse outros fornecedores.

O material de 19 páginas foi protocolado na 8ª Vara da Comarca de São Bernardo do Campo. De acordo com a Volkswagen, já em 2015, as “corrés Brazul, Tegma, Transauto e Transzero, com o auxílio dos cegonheiros, paralisaram os seus serviços de transporte de veículos como represália à tentativa da autora [VW] de contratação de uma única empresa para lhe prestar os mesmos serviços”. Pressionada, a montadora viu-se obrigada a abandonar tal plano.

Os advogados acrescentaram:

“Menos de um ano depois [portanto, em 2016], nova paralisação das atividades das corrés e dos cegonheiros, desta feita para pressionar a Autora a aceitar o valor de reajuste proposto para os fretes contratados, bem como a obrigá-la a manter os contratos vigentes.”

Os representantes da montadora ainda deixaram claro os motivos que levaram ao bloqueio da fábrica, em 2017, por mais de 15 dias:

“Inviabilizar processo seletivo para contratar novos prestadores de serviços com melhores condições técnicas e financeiras.

O processo não deu em nada. A montadora fez um acordo com o prestadores de serviços e retirou a queixa. O comportamento da marca só confirma a participação, por meio da conivência e alinhamento da indústria para manutenção do cartel.

Por último, a fala de Possobom também contraria uma regra de mercado: a lei de oferta e demanda. Sabe-se que quando a procura por um produto ou serviço é alta e a oferta é baixa, os preços tendem a subir. O CEO dá demonstração de negacionismo. Só faltou dizer que não existe cartel dos cegonheiros. Paralelo, pelas declarações dada à Folha, o executivo mostra-se incapaz de buscar a contratação de caminhões-cegonha de empresas não alinhadas ao cartel dos cegonheiros.

A reportagem do site Livre Concorrência fez os seguintes questionamentos à montadora:

O ilustre executivo afirma que não existe sobrepreço nos valores dos fretes. No entanto, Gaeco, Cade, Polícia Federal e Ministério Público Federal, após a deflagração da Operação Pacto, comprovaram que a falta de concorrência no setor de transporte de veículos novos, causa um ágio de até 40%. Como o CEO vê essas afirmações dos entes de Estado?

Em dezembro de 2017, ao enfrentar greve no escoamento da produção, a Volkswagen, em petição protocolada na Justiça de São Bernardo do Campo, afirmou que as “corrés”, empresas que fazem a logística da distribuição dos veículos fabricados pela montadora, estavam “impedindo a VW de buscar melhores condições técnicas e preços mais competitivos”. No entanto, manteve os mesmos prestadores de serviço. O que levou a montadora a mudar de opinião ?

O CEO comenta que há falta de caminhões-cegonha. A VW tentou buscar caminhões-cegonha em outras empresas que não as atuais prestadoras de serviço?

A Assessoria de Imprensa da Volkswagen do Brasil, limitou-se a responder:

“Infelizmente não conseguiremos participar da sua pauta. Mas estamos à disposição para futuras oportunidades.”

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Um comentário sobre "CEO da Volkswagen nega existência de ágio no transporte de veículos novos"

  1. LUIZ CARLOS BEZERRA disse:

    POIS É,MEUS NOBRES AMIGOS, QUE SEMPRE ESTÃO ATENTOS A ESSAS MATÉRIAS EDITADAS NESSE PORTAL INTITULADO CORRETAMENTE COMO RESPEITO AS LEIS CONSTITUCIONAIS DA “LIVRE CONCORRÊNCIA”, QUE NÃO É E NUNCA FOI RESPEITADO PELAS MONTADORAS DE VEÍCULOS EXISTENTES EM NOSSA NAÇÃO, PARA NÃO SOFREREM PREJUÍZOS FINANCEIROS COMO OS CAUSADOS POR ESSA FACÇÃO CRIMINOSA, DENOMINADA COMO O “CARTEL DOS CEGONHEIROS”, QUE MANDAM INCENDIAR AS CARRETAS CARREGADAS PELAS TRANSPORTADORAS DOS VEÍCULOS ENTÃO PRODUZIDOS NO PAÍS!
    ESSE CARTEL CRIMINOSO, NÃO PERDOA A NINGUÉM, MESMO. SENDO ASSIM, AS MONTADORAS FICAM REFÉNS DO CARTEL, PARA NÃO SOFREREM ESSES ATENTADOS, COMO JÁ OCORREU EM VÁRIOS CASOS.
    O CARTEL REALMENTE APLICA OS SOBREPREÇOS, COM OS ÁGIOS, QUE SÃO REPASSADOS AOS CONSUMIDORES FINAIS, QUE JAMAIS RECUPERAM TAIS PREJUÍZOS. AS SUAS CONCESSIONÁRIAS REPASSAM TAIS DIFERENÇAS ABUSIVAS AOS SEUS CLIENTES.
    COMO SE CONSTATA, PARA PROVOCAR A EXTINÇÃO DEFINITIVA DESSE “CARTEL”, COMO JÁ TENHO DITO POR VÁRIAS VEZES, SÓ CANCELANDO OS “ALVARÁS DE FUNCIONAMENTO”, DAS TRANSPORTADORAS VINCULADAS A ESSE “CARTEL CRIMINOSO” E, PUNIR TAMBÉM AS MONTADORAS DE VEÍCULOS, QUE SE CURVAM PARA ESSES FINS, CAUSANDO SÉRIOS PREJUÍZOS A NOSSA NAÇÃO, POR TANTOS ANOS.
    OS VEÍCULOS NOVOS PRODUZIDOS EM NOSSO PAÍS, SÃO OS MAIS ELEVADOS DA AMÉRICA LATINA, POR ESSES MOTIVOS, FORÇANDO A MUITOS CIDADÃOS BRASILEIROS A ADQUIRIREM SEUS VEÍCULOS 0(ZERO)KM, EM PAÍSES VIZINHOS. É OU NÃO É UM ABSURDO PREJUDICIAL A NOSSA NAÇÃO?
    DECRETEM O FIM DA LINHA PARA ESSA ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA, DENOMINADA COMO O “CARTEL DOS CEGONHEIROS”, NOBRES DESEMBARGADORES E JUÍZES DE NOSSA PÁTRIA AMADA BRASIL!
    MAIS UMA VEZ, PARABENIZO VEEMENTEMENTE ESSE PORTAL BRILHANTE, POIS SÓ POR AQUI QUE SÃO PUBLICADAS JORNALISTICAMENTE ESSAS MATÉRIAS!

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