Cifras milionárias orbitam as operações do cartel dos cegonheiros

Os números envolvidos em vários tipos de operação parecem impressionar. Identificados mais de R$ 650 milhões. Mas são infinitamente menores ao prejuízo superior a R$ 5 bilhões em ágio por ano, repassados diretamente aos consumidores pelo esquema ilícito que impede a livre concorrência no bilionário setor de transporte de veículos novos.

De São Paulo

Algumas operações envolvendo os investigados por formação de cartel são legais e chegaram a ser aprovadas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a exemplo de compra de empresas do mesmo setor. A autoridade antitruste também está no centro da apuração que investiga o segmento, junto com a Polícia Federal e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco-SBC). Um levantamento feito pela equipe de jornalismo investigativo do site Livre Concorrência apurou que os valores negociados alcançaram a cifra de R$ 656,5 milhões ao longo dos últimos anos. Isso refere-se ao que veio à tona. Várias operações são mantidas sob sigilo, o que dificulta mensurar, conforme análise da Polícia Federal após duas operações de busca e apreensão (a Pacto e a Ciconia), já que contratos encontrados, “não trazem escrito os valores a que se referem”.

Os últimos documentos apreendidos pelos federais no âmbito da Operação Ciconia (29 de agosto de 2023) mostram operações que podem ter envolvido cerca de R$ 33,8 milhões. Desse montante, pelo menos R$ 20,8 milhões estão documentados por meio de contrato e distrato firmados entre Vittorio Medioli (prefeito de Betim-MG e proprietário do grupo Sada) e Edson Luiz Pereira, ex-diretor Comercial do grupo Sada que passou a prestar serviços de consultoria (R$ 18 milhôes), além de 13 cheques que totalizam R$ 1,3 milhão emitidos pela empresa Transmarimbondo, de propriedade de José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho, presidente do Sinaceg. Soma-se a isso um contrato de compra de vaga de transportador na Transmoreno (adquirida pela Julio Simões em 2020), feito por um advogado de Betim-MG. Os pedidos de “verba” ou de “vagas” que também surgiram no material apreendido em que três pessoas aparecem sugerem outros negócios que totalizam R$ 13 milhões. Dos procurados, ninguém quer falar sobre o assunto, incluindo o presidente, o vice-presidente do Sinaceg e o presidente do Sintraveic-ES.

Nas minutas de atas de reuniões no Sindicato Nacional dos Cegonheiros (SInaceg), já condenado por formação de cartel na Justiça Federal do Rio Grande do Sul – há recursos pendentes no Superior Tribunal de Justiça -, aparece menção a pedido de “verba” supostamente em nome de três pessoas. Laurimar (uma fonte afirma ser possivelmente Laurimar Simeão) e Jorge (de sobrenome não identificado) pedem R$ 3 milhões cada um. O argumento seria, segundo consta na agenda do Sinaceg:

“Reivindicam alguns direitos sobre possibilidade de acomodação para trabalhar. Vamos ver alguma possibilidade e daremos a resposta mais para a frente.”

IPL 2012.0085503, página 118.

No fato mais emblemático, consta um “recorte” onde aparece no nome do advogado Phillip. O texto mostra:

“Waldelio (de Carvalho Santos é presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo, o Sintraveic-ES) precisa que se arrume o total de R$ 7.000.000,00, destes, 2 milhões para que ele resolva uma situação urgente e assim depois ele fique em paz e daí para frente, junto a nós, construa um compromisso com as empresas de ter um valor a ser recebido. Isto nós vamos ajustar o valor. Tudo bem.”

IPL 2021.0085503, página 31

Nesse compasso surge, ainda, um imbróglio envolvendo a empresa BRLogis, que tem como acionistas integrantes do Sinaceg. A empresa estaria enfrentando boicote para manter-se no mercado, feito por alguns dos próprios sócios. Uma fonte chegou a afirmar que a empresa teria conseguido um empréstimo de R$ 1,6 milhão no banco da cooperativa dos cegonheiros, tendo o presidente do Sinaceg, como avalista. Na entidade, ninguém quer manifestar-se para negar ou confirmar a informação.

Outros negócios milionários

A equipe investigativa do site Livre Concorrência fez um levantamento de outros negócios “anunciados” envolvendo o bilionário setor de transporte de veículos novos. As operações (algumas legais) movimentaram mais de R$ 600 milhões, a exemplo da compra de empresas submetidas à apreciação e aprovação do Cade.

Em 2008, a Tegma Gestão Logística comprou a Cooperativa de Transportadores de Veículos (CTV) pelo valor – segundo cópia do contrato obtida com exclusividade pelo Anticartel, nome anterior do Livre Concorrência) de R$ 147 milhões, numa triangulação societária, envolvendo pelo menos outras três empresas. A operação foi aprovada pelo Cade.

Três anos depois, a Tegma vendeu vagas para transportadores, destinadas apenas a integrantes do cartel. Apesar de a empresa possuir negócios da Bolsa de Valores, não houve oferta pública para as vagas, que foram adquiridas por quem já detinha a condição de transportador, contribuindo para a manutenção do mercado fechado. A empresa trouxe para os cofres, com a operação, R$ 87 milhões.

Em agosto de 2020, foi a vez da Julio Simões – que detinha pequena parte no setor de transporte de veículos (entrou na General Motor por decisão judicial que obrigou a montadora a contratar transportadores não vinculados ao sistema ANTV/Sinaceg) – anunciar a compra da Transmoreno. A operação, também aprovada pelo Cade, movimentou R$ 310 milhões. Ao lado do cartel – continuou usando cegonheiros-empresários ligados ao Sinaceg e sindicato do Paraná, também controlado por São Bernardo do Campo-SP), a Júlio Simões deverá repassar aos antigos proprietários, “um prêmio de R$ 10 milhões em 2025, caso determinadas condições sejam atingidas até o final de 2024”. A operação foi anunciada por comunicado ao mercado denominado Fato Relevante. Mesmo após a compra, a JSL manteve os valores de frete cobrados pelo cartel das montadoras Renault e Nissan.

No mesmo ano, o Sinaceg fez reunião em São Bernardo do Campo de onde saiu decisão para arrecadar R$ 7,4 milhões destinados ao ressarcimento dos prejuízos que cegonheiros-empresários amargaram com incêndio criminoso de 25 caminhões cegonha em pátio que seria da Brazul Transporte de Veículos. O incêndio consumiu 85 veículos zero-quilômetro de várias marcas. Ninguém foi responsabilizado, apesar de a Polícia Civil ter indicado seis pessoas. A pedido do Ministério Público, o inquérito foi arquivado.

Já no ano de 2021, Afonso Rodrigues de Carvalho firma acordo milionário com Vittorio Medioli. O acordo para aderir ao sistema cartelizante que o ex-líder sindical denunciara há 20 anos pode ter envolvido mais de R$ 30 milhões, pelo número de vagas de transportador destinadas à Carvalho, avaliadas em até R$ 3 milhões cada uma.

Operação Pacto

No âmbito da Operação Pacto, policiais federais apreenderam documentos mostrando o financiamento de greve na Bahia, ocorrida em 2014, onde foram destinados R$ 2,9 milhões, rateado entre transportadoras investigadas. Houve pagamento de recursos à Polícia Civil, Polícia Militar e Polícia Rodoviária Federal (PRF), conforme relatado em e-mail apreendido. Em depoimento ao site Livre Concorrência, cegonheiro afirma que nas manifestações violentas ocorridas em Jacareí, em frente da montadora Chery, em 2018, empresas investigadas arcaram com R$ 3 milhões.

Na mesma operação, outro e-mail datado de julho de 2014, endereçado ao então presidente da General Motors do Brasil por um executivo da Brazul (já falecido), indica que a montadora foi beneficiada com um desconto de R$ 44 milhões nos fretes. A finalidade foi abortar o projeto de transporte por cabotagem (navios).

Logo após a deflagração da Operação Pacto, cegonheiros-empresários denunciaram que o Sintraveic-ES estaria cobrando R$ 12 milhões dos associados para destinar os recursos a pagamento de honorários advocatícios. Cada um dos associados da entidade patronal iniciou o desconto de 10% sobre o faturamento bruto para serem repassados ao escritório de advocacia.

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Um comentário sobre "Cifras milionárias orbitam as operações do cartel dos cegonheiros"

  1. LUIZ CARLOS BEZERRA disse:

    Pois é, nobres amigos que sempre acompanham essas matérias jornalísticas brilhantes.
    O que poderíamos comentar sobre esses crimes, que já causaram sérios prejuízos a nossa Nação Brasileira e, ainda atuam por tantos anos!
    Por quê será que a nossa Suprema Corte Judiciária, ainda não puniu esses criminosos, na forma das nossas “Leis Constitucionais”, onde já era para terem mandado fechar esse tal de SINACEG (que se intitula como Nacional) e ainda permitirem que as Transportadoras de Veículos novos, ainda possuam seus respectivos “Alvarás de Funcionamento”, ativos.
    Os prejuízos causados principalmente aos consumidores finais, são incalculáveis também e jamais serão ressarcidos. Não é mesmo?
    Onde está a grande mídia Jornalística, que nunca se manifestou em prol da nossa Nação Brasileira, por tantos anos. Só esse magnífico Portal que se manifesta sobre esses fatos e até seu Editor Chefe, também já sofreu muitos ataques dessa “Facção Criminosa, denominada como o CARTEL DOS CEGONHEIROS”!
    SALVEM A NOSSA PÁTRIA AMADA: BRASIL”
    “DURA LEX, SED LEX!”
    Nossa Nação precisa ser respeitada, urgentemente!
    NADA MAIS A COMENTAR!

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