Delegado rechaça acusações e aponta motivações ocultas que levaram testemunha a trocar depoimento

Aldronei Antônio Pacheco Rodrigues, que presidiu o inquérito aberto pela Polícia Federal para apurar crimes cometidos pelo cartel dos cegonheiros, reafirmou que agiu dentro da lei e com o amparo da Justiça. As supostas irregularidades informadas por testemunha que decidiu trocar, em 2018, o conteúdo de depoimento prestado em 2012 deve-se a uma tentativa dessa organização criminosa de colocar sob suspeita conclusões da investigação que culminou na identificação dos líderes desse esquema e na denúncia à Justiça de seis pessoas envolvidas em ataques incendiários a caminhões-cegonha.

De São Paulo

O procedimento instaurado em agosto de 2018 para investigar supostas irregularidades praticadas pelo delegado de Polícia Federal Aldronei Antônio Pacheco Rodrigues (foto de abertura) em depoimento prestado pelo réu confesso José Carlos Rodrigues, o Pernambuco, foi encaminhado à Corregedoria da Polícia Federal no Rio Grande do Sul e resultou na instauração, em novembro de 2018, de Expediente de Natureza Disciplinar (END), arquivado em agosto de 2019. O delegado responsável pelo inquérito 277/210 – que investigou crimes praticados pela organização criminosa que controla o bilionário setor de transportes de veículos novos no país, o chamado cartel dos cegonheiros – foi acusado de coagir uma testemunha, inventar e acrescentar trechos no depoimento dela dado à Polícia Federal e à Justiça em setembro de 2012. Em sua defesa, o delegado Aldronei revelou indignação e perplexidade com a suspeita levantada contra ele. Reafirmou que a testemunha prestou depoimento de livre, espontânea e firme vontade, como afirmou posteriormente em novo depoimento, dessa vez na presença de um juiz, de um representante do Ministério Público e de uma defensora nomeada para representá-la. O delegado também afirmou que a testemunha que mudou o depoimento deve estar ”comprada pelo cartel dos cegonheiros” ou ameaçada por integrantes dessa organização criminosa.

Nos autos, cujo conteúdo o site Livre Concorrência teve acesso com exclusividade, o delegado Aldronei chamou a atenção para motivações ocultas no depoimento prestado por Pernambuco ao procurador Steven Shuniti Zwinker, de São Bernardo do Campo (SP). O delegado referiu-se ao inquérito 277/2010, presidido por ele. Eis o trecho:

“O objeto ali investigado se refere a um cartel superpoderoso, por nós denominado de máfia, que domina o lucrativo mercado do transporte de veículos zero-quilômetro em nosso país. Como o objetivo desta peça não é o escrutínio da matéria de fundo, e sim a conduta desta Autoridade Policial, não temos que nos ocupar de tal assunto, mas nos sentimos obrigados a tecer algum comentário, pois temos a mais plena certeza, por tudo que tivemos conhecimento naquela investigação, que o depoimento impreciso, confuso e inverídico de tal pessoa [Pernambuco] perante o procurador Steven possui uma motivação muito forte, e que nos arriscamos a dizer que foi propositadamente voltado ao signatário com um interesse ilegítimo do cartel de colocar sob suspeita os atos por mim praticados no âmbito de tal investigação.”

As conclusões do inquérito 277/2010 serviram de base para o Ministério Público do Rio Grande do Sul denunciar, em 2022, Pernambuco e mais cinco comparsas. Os líderes desse esquema também foram identificados, mas ficaram, até o momento, de fora da peça que o MPRS apresentou à Justiça. O órgão ministerial, no entanto, revelou que pode haver a inclusão de outro investigado por aditamento ou em processo distinto, referindo-se a Vittorio Medioli, atual prefeito de Betim (MG) e proprietário do grupo Sada. Os denunciados operaram por meio de ataques incendiários a caminhões-cegonhas, com o objetivo de manter o controle do cartel dos cegonheiros sobre as cargas do mercado de fretes de veículos novos. A Justiça acolheu a denúncia e o processo contra os réus tramita na 11ª Vara Criminal da Comarca de Porto Alegre.

Sobre a diferença dos depoimentos prestados por Pernambuco – um em 2012, dado à PF e à Justiça, e o outro em 2018 – o delegado se manifestou nos autos do END. Disse que o conteúdo do último foi marcado pela ocultação de fatos e incertezas em datas e pela tentativa da testemunha se distanciar dos fatos ocorridos.

“O relato de Pernambuco, a mim e em juízo, impressiona pela riqueza de detalhes, a quantidade de nomes, fatos, circunstâncias, dados e locais que abrange, muito diferente da fala confusa, titubeante e incerta que apresenta ao procurador Steven Shuniti Zwincker [de São Bernardo do Campo], mostrando claramente que sua ocultação de fatos, incerteza em datas e circunstâncias é uma tentativa pueril de se colocar distante dos fatos e alheio a tudo que afirmou categoricamente nos expedientes que firmou aqui no Rio Grande do Sul, em Juízo e na Polícia Federal.”

Ele acrescentou:

“Quem como eu assiste a esses vídeos [depoimentos prestados em São Bernardo do Campo] tendo tido contato com tal pessoa, verifica o quão industriado está e o quanto tenta ocultar e ludibriar.”

Em sua defesa, delegado Aldronei afirmou ter ficado impressionado com a riqueza de detalhes relatados por Pernambuco em 2012. Por causa disso, o policial federal decidiu judicializar o depoimento como produção de prova antecipada. O delegado explicou os cuidados que tomara à época:

“Lembro que os relatos de tal pessoa, de alcunha Pernambuco, me impressionaram bastante pela riqueza de detalhes, em especial nas circunstâncias da confecção dos artefatos [explosivos], e na logística, para os incêndios das carretas, tanto que temi por sua vida e integridade física, e de sua família, como ele mesmo alegou.”

O delegado acrescentou:

“Resolvi representar ao juiz estadual, a quem havia sido declinada a competência para o inquérito 277/2010, para que efetuasse uma produção de prova antecipada, o que foi efetuado nos autos do processo nº 2.12.0092196-6. Nossa intenção com a judicialização da prova era garantir que, uma vez sendo efetuada a colheita de prova, e à medida que tal circunstância passasse a ser do conhecimento do cartel dos cegonheiros, a pressão sobre tal testemunha iria sendo amenizada, pois não teria mais sentido prático ao cartel matá-la ou efetuar qualquer ato atentatório a sua integridade física ou a alguém de sua família, posto que a prova já estaria judicializada.”

Ele ressaltou:

“Outra intenção com a judicialização da prova era a de salvaguardá-la, pois o que foi dito por Pernambuco a mim, e ao juízo posteriormente, era por demais grave, e, por óbvio, me passava pela cabeça a probalidade muito grande de ele ser morto, ou mesmo de não ser mais encontrado para reafirmar em juízo tais fatos.”

O delegado destacou ainda que as conclusões do inquérito 277/2010 não se basearam apenas no depoimento de Pernambuco. A extensa peça produzida pela PF soma seis volumes e apresenta uma análise acurada de dezenas de incêndios criminosos de caminhões-cegonha, além de oitivas de outras testemunhas.

Procurado pela reportagem, a Assessoria de Imprensa da Polícia Federal respondeu que o delegado Aldronei não se manifestará.

Nota da Redação

O site Livre Concorrência (na ocasião do depoimento de Pernambuco em 2012, ainda ostentava o nome de Anticartel) esclarece à opinião pública que, em respeito à testemunha e visando resguardar sua integridade física, optou, na ocasião, em não publicar a entrevista concedida tão logo prestou depoimento em juízo, momento em que a testemunha, que delatou seus aliados na empreitada criminosa, reafirmou todas as informações prestadas à Polícia Federal e ao Poder Judiciário.

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Um comentário sobre "Delegado rechaça acusações e aponta motivações ocultas que levaram testemunha a trocar depoimento"

  1. LUIZ CARLOS BEZERRA disse:

    POIS É, NOBRES AMIGOS QUE SEMPRE ACOMPANHAM ESSAS BRILHANTES MATÉRIAS.
    DE FATO, OS LÍDERES DESSA FACÇÃO CRIMINOSA, DENOMINADA COMO O “CARTEL DOS CEGONHEIROS”, COMANDADA PELO ESTRANGEIRO ITALIANO, ACIMA CITADO, NÃO RESTA A MENOR DÚVIDA, QUE ELE TERIA SIDO O MENTOR INTELECTUAL, PARA ESSAS AÇÕES CRIMINOSAS. TENDO ATÉ FINANCIADO TAIS ATOS.
    MAS COMO O “TIRO SAIU PELA CULATRA”, E SEU COMANDADO RESOLVEU CONFESSAR, CERTAMENTE TERIA SIDO AMEAÇADO DE MORTE, JUNTAMENTE COM SUA FAMÍLIA, NÃO É MESMO?
    POR QUÊ ESSE TAL DE “PERNAMBUCO”, TERIA SE FORAGIDO???
    ESSAS EMPRESAS, TRANSPORTADORAS DE VEÍCULOS VINCULADAS A ESSE SISTEMA CRIMINOSO, JÁ DEVERIAM TER SEUS RESPECTIVOS “ALVARÁS DE FUNCIONAMENTO”, CANCELADOS HÁ MUITO TEMPO! POIS SÓ ASSIM, AS EMPRESAS NACIONAIS TERIAM CONDIÇÕES DE TRABALHAREM NESSES ESCOAMENTOS DE VEÍCULOS NOVOS PRODUZIDOS NAS PLANTAS DE NOSSA NAÇÃO.
    AQUI É BRASIL, LOGO, AS TRANSPORTADORAS DE VEÍCULOS BRASILEIRAS, POSSUEM TAIS DIREITOS LEGAIS.
    CUMPRAM AS NOSSAS LEIS CONSTITUCIONAIS.
    SALVEM NOSSA CATEGORIA PROFISSIONAL, QUE FOI MASSACRADA POR TANTOS ANOS.
    PARABÉNS AO CITADO DELEGADO!
    FIM DA LINHA PARA TODOS ESSES RÉUS E, PRINCIPALMENTE PARA O CARTEL DOS CEGONHEIROS!!

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