Documento mostra que Sinaceg planejou criação de sindicato no Nordeste para manter controle nacional

Material apreendido pela Polícia Federal mostra agenda com anotações sobre futura criação de sindicato de cegonheiros em Pernambuco, visando manter o controle nacional do bilionário mercado por parte do cartel dos cegonheiros. O conluio que envolve grandes transportadoras causa prejuízo superior a R$ 5 bilhões por ano aos consumidores. 

De São Paulo

A condenação (em 2016) do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), aliada a duas operações da Polícia Federal e duas ações penais em curso por formação de cartel e associação criminosa a integrantes do conluio que envolve também grandes transportadoras, além de investigação em andamento no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), não foram suficientes para causar temor à entidade. Flagrada pelos federais negociando fretes – o que é proibido pela decisão da Justiça Federal do Rio Grande do Sul – documentos apreendidos mostram o Sinaceg engendrando a criação de sindicato paralelo em Pernambuco. Há anos, a entidade patronal controla pelo menos sete entidades estaduais do gênero, visando impedir o ingresso de novos agentes no bilionário setor de transporte de veículos novos, mantendo o mercado fechado.

De olho no transporte de cerca de 40 caminhões-cegonha por dia – em média, segundo o presidente do Sintravesci – oriundos do porto de Suape (Pernambuco), uma agenda apreendida pela Polícia Federal no âmbito da Operação Ciconia mostra que com 30 dias de antecedência, houve a engendração da criação de um sindicato paralelo, visando neutralizar o já existente não alinhado ao cartel. A ação foi gestada na entidade que se autointitula “nacional”. Nomes a serem indicados, incluindo Edinor Marques da Silva, irmão do atual presidente do Sinaceg, José Ronaldo Marques da Silva, estão nos manuscritos. As anotações, datadas de 23 de maio de 2023, se concretizaram com a formalização da criação do Sindicabo, com sede em Cabo de Santo Agostinho (PE), segundo análise dos policiais federais.

A Polícia Federal também já dispõe da comprovação de que transportadores associados ao Sinaceg participam de pelo menos outros sete sindicatos considerados regionais. Fonte próxima às investigações dá conta de que por meio desse sistema, “o controle do mercado está caracterizado, usando para isso, vários braços sindicais”. Além da entidade patronal com sede em São Bernardo do Campo, cegonheiros – todos empresários – são filiados aos sindicatos da Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul (com a criação de sindicato paralelo), Paraná, Santa Catarina e Jacareí, interior paulista. Todos atendem ao que é determinado pelo Sinaceg, de acordo com a investigação.

Controle nacional

Pernambuco – Cerca de 45 associados ao Sintravesci, entidade patronal que abrange os municípios de Escada, Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca (PE), assistem, atônitos, a dezenas de caminhões-cegonha de integrantes do cartel dos cegonheiros entrarem e saírem do Suape, por onde ingressam no Brasil milhares de veículos importados. É o que resta aos execrados pelo controle absoluto do setor de transporte de veículos novos exercido pelo Sinaceg que ceifa a possibilidade de cegonheiros daquele estado participarem do escoamento dos veículos. Carlos Alberto da Silva, presidente do Sintravesci, afirma que há oito anos a entidade luta para conseguir participação no transporte dos veículos chegados pelo Suape, mas é impedida pelo bloqueio imposto por integrantes do Sinaceg.

A criação do Sindicabo, liderada pelo irmão do presidente do Sinaceg, indica que a pré-candidatura fracassada à vice-presidência do Sinaceg, intentada por um ex-líder sindical no último dia de fevereiro deste ano, pelo menos expôs o fato de que a administração da entidade patronal coloca em prática projetos “familiares em detrimento da coletividade”. No mesmo período, também atendendo à indicação gravada na agenda apreendida, Edinor Marques da Silva abriu uma filial da sua empresa, a EMS Transportes, em Cabo de Santo Agostinho.

Desde abril de 2015, luta semelhante é travada por outra entidade patronal. O Sindicato dos Cegonheiros de Pernambuco (Sintraveic-PE) tenta, em vão, conquistar o direito de participar do escoamento da produção dos veículos fabricados na planta da Stellantis (ex-FCA-Fiat-Jeep), localizada na cidade de Goiana. Todo o transporte é monopolizado por integrantes do Sinaceg e Sintrauto – o Sindicato dos Cegonheiros de Minas Gerais – com a conivência da montadora, também aliada ao cartel dos cegonheiros e de transportadoras investigadas.

Goiás – O Sintravauto, comandado por Washington Cleiton Bueno Bianconi, mais conhecido como Bill, enfrenta a mesma dificuldade. Com 11 associados, o pequeno sindicato assiste ao sofrimento da categoria frente ao “boicote” e não conseguem operar em nenhuma das duas montadoras sediadas no estado, responsáveis por quatro marcas: Mitsubushi e Suzuki em Catalão e Caoa-Chery em Anápolis. Bill ressalta que “há muitos anos o setor é assim. Infelizmente, o mal sempre vence o bem”, desabafa. Nos documentos apreendidos pela PF, em ata de reunião entre integrantes do Sinaceg a ordem é clara, ao estabelecer:

“Em Catalão (fábrica da Mitsubishi e Suzuki), ninguém vai mexer nas operações que já existem. O que houver de operação nova daí para frente nós juntos vamos decidir e fazer novas operações. Fica estabelecido e combinado para juntos fazer uma reunião entre, Sinaceg, Sintrauto e Sintravan.”

Rio Grande do Sul – No estado gaúcho, o sindicato dos cegonheiros (Sintravers) que, representado pelo presidente da época (2000) denunciou a existência de cartel no bilionário setor ao Ministério Público Federal (MPF), foi “desidratado” por integrantes do Sinaceg, depois de se negar a cumprir as determinações vindas de São Paulo. Sediado na cidade de Gravataí – onde está a planta da General Motors do Brasil, também condenada por participação ativa na formação do cartel – viu serem transferidas as contribuições de associados que “migraram” para o sindicato paralelo criado sob o comando da entidade paulista, o Sintracergs, cujo presidente é Silvio Miguel Coelho Dutra, ex-presidente e ex-tesoureiro do Sintravers. A ação colusiva do cartel levou as transportadoras Transauto, Tegma, Júlio Simões, Brazul e Transzero (grupo Sada), efetuarem os descontos das contribuições e entregá-las diretamente ao sindicato paralelo. Essas transportadoras são responsáveis pelo escoamento da produção da fábrica gaúcha da GMB.

Paraná – Foi em 2016 que integrantes do Sinaceg assumiram o controle do sindicato dos cegonheiros do estado, o Sintravec. Há boletins de ocorrência policial comprovando a inexistência de assembleia para deliberações que teriam sido supostamente validadas pela pressão. Houve, por acordo com um grupo que anteriormente denunciara a existência do cartel, a cooptação por meio da distribuição de 60 vagas de transportador (cegonheiro), atualmente avaliadas cada uma em valor médio de R$ 2 milhões. Informações repassadas por Carlos Roberto Porto, ex-presidente do Sintravec, revelam que houve farta distribuição de vagas para um pequeno grupo de transportadores que aderiram ao cartel, em detrimento de um expressivo número de cegonheiros (empresários), prestadores de serviços inclusive à Transportes Gabardo, uma das únicas empresas não envolvidas no esquema ilícito cartelizante.

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Um comentário sobre "Documento mostra que Sinaceg planejou criação de sindicato no Nordeste para manter controle nacional"

  1. LUIZ CARLOS BEZERRA disse:

    É MEUS NOBRES AMIGOS, QUE SEMPRE ACOMPANHAM ESSAS BRILHANTES MATÉRIAS EDITADAS NESSE PORTAL LÍCITO, QUE INCRIVELMENTE É O ÚNICO PORTAL JORNALÍSTICO QUE SE MANIFESTA CONTRA ESSA TERRÍVEL FACÇÃO CRIMINOSA, DENOMINADA “CARTEL DOS CEGONHEIROS”!
    NOSSAS LEIS CONSTITUCIONAIS NUNCA FORAM RESPEITADAS PELO TAL DO SINACEG, POIS SE INTITULA COMO “NACIONAL”, HAJA VISTA QUE QUAISQUER SINDICATOS DE ENTIDADES PROFISSIONAIS, SÓ EXISTE UM EM CADA ESTADO DA FEDERAÇÃO.
    EM SBC-SP, O NOME DESSE SINDICATO ERA “SINDICAM”, E TEVE SEU NOME ALTERADO, SURGINDO DAÍ ESSE NOVO, O SINACEG, SE DENOMINANDO COMO “NACIONAL” (CRIME HEDIONDO)!
    ESSE SINDICATO POSSUI UM GRANDE LÍDER, QUE SÓ SE MANIFESTA NA SOMBRA, POIS ELE É O PREFEITO DE BETIM-MG, ONDE JÁ DEVERIA TER SOFRIDO O IMPEACHMENT DESSAS FUNÇÕES HÁ MUITO TEMPO MESMO, E POSSUI MAIS DE 4 TRANSPORTADORAS DE VEÍCULOS VINCULADAS AO SISTEMA, POR SER O PROPRIETÁRIO DO GRUPO SADA.
    CONSEGUIU COOPTAR ALGUNS ASSOCIADOS DO SINTRAVEIC-PE, QUE PASSARAM A ATUAR NO ESCOAMENTO DOS VEÍCULOS DA FIAT-JEEP, SITUADO NA PLANTA DE GOIANA-PE E, POR ESSE MOTIVO FORAM EXPULSOS DO SINTRAVEIC-PE QUE ATÉ HOJE, NUNCA PODE TRANSPORTAR TAIS VEÍCULOS PRODUZIDOS NESSA MONTADORA. UM VERDADEIRO ABSURDO.
    SENDO ASSIM, O TAL DE SINACEG, RESOLVEU MONTAR UM OUTRO SINDICATO NO ESTADO DE PERNAMBUCO, O QUE CARACTERIZA UMA OUTRA FRAUDE CONSTITUCIONAL.
    QUE PAÍS É ESSE, QUE OS CRIMINOSOS CONTINUAM ATIVOS POR TANTOS ANOS?
    NÃO BASTA APLICAREM MULTAS FINANCEIRAS, OS ÓRGÃOS JUDICIÁRIOS DEVERIA MANDAR FECHAR DEFINITIVAMENTE ESSE TAL DE SINACEG E TAMBÉM, CANCELAR TODOS OS ALVARÁS DE FUNCIONAMENTO DAS TRANSPORTADORAS VINCULADAS AO SISTEMA.
    AS MONTADORAS DE VEÍCULOS 0 (ZERO) KM, SEMPRE FICARAM REFÉNS DESSE CARTEL, PARA NÃO TEREM OS PREJUÍZOS DE INCÊNDIOS NAS CARRETAS DE OUTRAS TRANSPORTADORAS, COMO JÁ ACONTECERAM MUITO NO PASSADO RECENTE.
    O QUE MAIS COMENTAR, NÃO É MESMO?
    SALVEM A NOSSA PÁTRIA AMADA BRASIL, SRS. JUÍZES DE DIREITO QUE ATUAM NESSAS PAUTAS! ATENDAM AS INVESTIGAÇÕES DA PF, ACIMA CITADAS.

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