Ex-executivo da Sada quer dizer à Polícia Federal como opera o cartel na sua forma ilegal

Ex-colaborador do grupo Sada por mais de dez anos falou com exclusividade para o site Livre Concorrência. Disse estar à disposição da Polícia Federal e do Gaeco para colaborar com o inquérito que originou a Operação Ciconia. Revelou que a demissão ou afastamento de executivos mais antigos, que detinham informações comprometedoras, ocorrida após a operação Pacto, foi estratégia dos advogados das empresas investigadas dos grupos Sada e Tegma.

De São Paulo

Um dos ex-executivos do grupo Sada, demitido após a deflagração da Operação Pacto (foto de abertura), concedeu entrevista exclusiva ao site Livre Concorrência. Por receio de retaliações, solicitou, num primeiro momento, a manutenção do sigilo da fonte, mas assegurou que está disposto a prestar depoimento à Polícia Federal a fim de esclarecer fatos e circunstâncias que dizem respeito a ações anticoncorrenciais, greves de cegonheiros para forçar reajuste nos valores de frete, considerado por ele como “sequestro de cargas” e até incêndios criminosos em caminhões-cegonha de empresas concorrentes. “Não estou falando de fatos novos. A PF já apreendeu muitos documentos. Sabe e tem provas de tudo. Minha participação e de outros ex-colegas vai trazer mais solidez e robustez às provas que os federais possuem, porque participamos de muitas reuniões em que esses assuntos eram discutidos e decididos”, justifica. Disse ter conhecimento de que pelo menos seis ou sete ex-colaboradores da Sada estão com a mesma disposição.

Indagado sobre o motivo pelo qual resolveu falar sobre questões sensíveis, o ex-executivo foi claro:

Tudo tem sua hora. Neste momento entendo que o setor (transporte de veículos) e principalmente a Sada estão fragilizados. Penso que é o momento de fazer isso. E todos os ex-executivos estão fora, podendo também colaborar.”

Ele refere-se a possibilidade dos ex-colegas também prestarem depoimentos às autoridades competentes que estão atuando nas investigações. Ressalta que o medo de ameaças e retaliações está presente na maioria dos ex-colegas. Essas são as principais razões pelas quais “temem revelar os detalhes de como o cartel dos cegonheiros opera na sua forma ilegal”.

Ele acrescenta sobre depoimentos

“Isso para dar certo seria preciso a Polícia Federal e o Gaeco chamar essas pessoas para depor. Eu posso ser o primeiro. Falo toda a verdade. Se chamarem todos, sendo alguma coisa oficial, eles não terão como negar. Acredito que todos – os afastados – não têm coragem ou estão com medo e fragilizado graças à gestão das empresas (grupos Sada e Tegma). Me preocupa, no entanto, o fato de algumas pessoas quererem dinheiro, um ou dois querem fazer um acordinho.”

O ex-executivo destaca que além dele “vários ex-colaboradores da Sada, em algum momento participaram de diversas reuniões”, cujo objetivo principal era “a combinação de preços” entre transportadoras que se apresentam como concorrentes. Ele estava na empresa quando a Polícia Federal, Gaeco e Cade deflagraram as diligências criminais de busca e apreensão.

Ele relembra:

“Sei que todos foram avisados pelas portarias sobre a presença da polícia. Sei que ex-colegas que receberam orientação do Roberto Caboclo para que não fossem para a sede da empresa.”

No âmbito da Operação Ciconia, segunda fase da Pacto, a  PF apreendeu documentos que confirmam a participação de três executivos nesse conluio e nessa combinação, reforçando o robusto material recolhido pela Operação Pacto.

Chama a atenção a dispensa de pelo menos quatro executivos recentemente. A orientação, segundo frisa a fonte, parte dos advogados das empresas investigadas por formação de cartel, em especial os grupos Sada e Tegma. Carlos Edson Póvoas (gerente Comercial), Rogério Perim (gerente Regional) Marcos Garcia (gerente da filial Taubaté-SP) e, por último, Luis Santamaria, (diretor executivo de transporte e logística), que teve diálogos interceptados pela Polícia Federal no âmbito da operação Ciconia. No caso de Póvoas, o contrato prevê proibição expressa, inclusive de “manter contato com funcionários do grupo”, garante o ex-executivo que falou à reportagem.

Sequestro de cargas
O ex-executivo da Sada conta que, em 2021, houve uma pressão empresarial sobre a montadora Renault – localizada em São José dos Pinhais-PR – com a intenção de forçar o reajuste nos valores pagos a título de frete. “Eu estava presente na reunião. Foi combinado entre Sada e Tegma que todo mundo (cegonheiros) ia carregar os carros e iria para o pátio, mas ninguém viajaria. Isso nada mais é do que um sequestro de cargas”, sentencia. Indagado se há prova do fato ocorrido, ele revela que “ninguém tem uma prova no papel. Isso não se escreve”, mas os fatos estão na internet, acrescentando que “se todos forem chamados para prestar depoimento, será muito difícil as empresas conseguirem calar todo mundo”.

Ele alerta para 2024:

“Greves em época de dissídio. A gente não tem isso no papel, mas tem todos os anos e isso vai ocorrer este ano também. Pelo que eu sei, as reuniões sobre isso, devem iniciar neste mês.”

Sobre o ex-diretor comercial da Sada, Edson Luiz Pereira – um dos alvos da operação Ciconia que teve quebra de sigilo autorizada pela Justiça a pedido da Polícia Federal – a fonte revela que como houve o afastamento de todas as pessoas que estavam envolvidas ou conhecem alguma história sobre os moldes em que o cartel opera, Pereira também foi afastado. “Mas o que eles fizeram? O contrataram como consultor. Ele é a pessoa que negocia todos os fretes do setor. Toda a negociação é com ele. Inclusive as negociações deste ano é ele quem vai conduzir”, antecipa.

A reportagem teve acesso à lista de executivos afastados desde a deflagração da Operação Pacto:

Grupo Sada (13)

Alexandre Santos e Silva
Carlos Aguiar
Carlos André
Carlos Édson Povoas
Edson Luiz Pereira
Luis Santamaria
Marcelo Belo
Marcos Garcia
Marcus Vinícius
Mario de Melo Galvão
Roberto Carlos Caboclo
Rogério Perim
Ronaldo Rodrigues

Tegma (9)

Elisio Rodrigues da Silva
Evandro Luiz Coser
Fernando Luiz Schettino Moreira
Gennaro Oddone
Marcos Pironato
Mário Sérgio Moreira Franco
Orlando Machado Júnior
Sineas Rodrigues Lial
Tito Lívio Barroso Filho

Transcar (4)

Antonio Cezar Chaves de Almeida
Pedro Júnior Souza
Márcio Laurette Bruno
Paulo Cesar da Silva Brum

Nota da Redação:

Visando garantir o direito ao contraditório e ao contraponto, a reportagem buscou contato com os personagens citados nas matérias publicadas hoje. Foram solicitadas manifestações sobre os assuntos à presidência do grupo Sada, Vittorio Medioli, Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), Transportes Gabardo e seis ex-executivos do grupo Sada. Dentre eles, está Edson Luiz Pereira, citado pela fonte como desligado do grupo, mas que estaria prestando assessoria, pessoa que seria responsável pelas negociações relativas a reajuste de fretes deste ano. Ninguém quis manifestar-se.

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Um comentário sobre "Ex-executivo da Sada quer dizer à Polícia Federal como opera o cartel na sua forma ilegal"

  1. LUIZ CARLOS BEZERRA disse:

    POIS É AMIGOS.
    O QUE SE FAZER NESSAS HORAS?
    ACREDITO QUE TENHAMOS É QUE COMEMORAR, POIS NÃO RESTAM DÚVIDAS QUE ESSE “CARTEL DOS CEGONHEIROS”, ESTARIA COM SEUS DIAS CONTADOS E, SEUS MAIORES LÍDERES, CORREM SÉRIOS RISCOS DE PUNIÇÕES MESMO!
    ATÉ O SINDICATO DESSA FARSA, DEVE SER FECHADO TAMBÉM!
    ASSIM ESPERAMOS!
    DURA LEX, SED LEX!

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