Montadoras que pagam frete mais caro ao cartel dos cegonheiros do que concorrente não falam sobre o assunto

Juntas, GM, Volkswagen, Fiat e Renault venderam no mercado interno em 2023 mais de 1,4 milhão de automóveis. Quase 80 vezes mais que as unidades comercializadas pela BYD. Se a lógica da quantidade não se aplica para garantir descontos a grandes clientes, o preço praticado pelas empresas do cartel dos cegonheiros para conquistar a marca chinesa tem outra explicação: eliminar a concorrência.

De São Paulo

Das quatro montadoras procuradas pela reportagem do site Livre concorrência para comentar o fato de pagarem 55% a mais pelo frete em relação a marca chinesa BYD, nem uma se manifestou. Tecnicamente, nada justificaria o desconto. General Motors, Volkswagen, Stellantis (Fiat/Jeep) e Renault movimentam muito mais cargas do que a montadora chinesa que está se instalando na antiga planta da Ford, em Camaçari, na Bahia. Mais cargas, mas descontos, diria a lógica de mercado e do setor.

Juntas, as quatro montadoras procuradas pelo site venderam no mercado interno em 2023 mais de 1,4 milhão de automóveis. Quase 80 vezes mais que as unidades comercializadas pela BYD em território nacional. Se a lógica da quantidade não se aplica para garantir descontos a grandes clientes, o preço praticado pelas empresas do cartel dos cegonheiros para conquistar a marca chinesa tem outra explicação: eliminar a concorrência.

Antes da Tegma assumir por meio de dumping o transporte dos veículos da BYD e dividir o serviço com a Sada e a Autoport (mais uma vez as três transportadoras comportando-se como se fossem uma única empresa, como apontou relatório da Polícia Federal no âmbito da Operação Pacto), os fretes da marca eram prestados pela Transportadora Gabardo, uma das poucas empresas do setor que desafia o domínio do cartel dos cegonheiros nesse bilionário mercado. Em pouco mais de um ano, a transportadora gaúcha foi alvo do cartel, perdendo cargas da BMW e da Stellantis. O conluio garante fixação artificial de preços, divisão de mercado e eliminação da concorrência, inclusive com o uso da violência. Os descontos aceitados pela BYD assegurou 45% das cargas para a Tegma. Sada ficou com 45% e Autoport, 10%.

A vantagem sobre a concorrência obtida pela BYD foi revelada por um ex-executivo da Sada que falou com exclusividade ao site Livre Concorrência. Segundo o entrevistado, o objetivo do cartel era cobrar 60% a 70% do valor cobrado pela Gabardo. A proposta foi acatada pela chinesa e o contrato com a empresa gaúcha cessou.

O preço abaixo do valor de mercado – já descontado o ágio de 40% cobrado pelo cartel e confirmado em investigação da Polícia Federal – virou um problema para a fábrica chinesa. O escoamento dos veículos importados pode estar vivendo agora sob a ameaça de ser paralisado pelos empresários-cegonheiros vinculados ao cartel, de acordo com informações que chegam à redação. Eles não aceitam receber o valor. Sequestro de cargas (carregá-las nos caminhões-cegonha e não viajar é uma das práticas adotadas pelo cartel, além do bloqueio de fábricas por meio de greve ilegal de patrões (locaute).

Nossa fonte, que trabalhou por mais uma década para a Sada, revelou na entrevista:

“Houve uma briga danada. Quando ganhou, nossos carreteiros não aceitaram muito bem porque o frete era muito barato. O primeiro carregamento que teve na BYD, lá de Vitória (ES) para Campinas, nenhum carreteiro queria assumir por conta do frete muito baixo. Isso até hoje dá problema.”

E acrescentou:

“É um tiro no pé, porque vocês cobram R$ 100 no mesmo trecho de uns, e cobram R$ 70 ou R$ 60 de outros. Não faz sentido. Normalmente quem tem maior volume ganha mais desconto, e neste caso se está fazendo o contrário.”

Locadoras
A reportagem também enviou à Volkswagen questionamento sobre o interesse, revelado pelo entrevistado, de a montadora transferir o custo do frete para as locadoras. O cartel é contra, claro, pois as locadoras poderiam optar por preços inferiores aos praticados pelo conluio. Em 2023, as locadoras foram responsáveis pela compra de quase 30% dos veículos leves comercializados no país. A Localiza não quis manifestar-se.

Vale lembrar ainda que em 2017, a marca alemã enfrentou um locaute por parte dos empresários cegonheiros. Chegou a exigir na Justiça o desbloqueio da fábrica e segurança jurídica para procurar prestadores de serviço com melhor preço e condições técnicas, mas voltou atrás e manteve os mesmos transportadores ligados ao cartel. Essa foi a segunda vez em poucos anos que a volkswagen teve um processo de contratação de novas transportadoras bloqueado pelo esquema investigado pela Polícia Federal, Cade e Gaeco.

Transportadoras independentes
A reportagem também encaminhou questionamentos a transportadoras denominadas independentes (não alinhas ao cartel) sobre o prejuízo causado pelo dumping e por outras condutas anticoncorrenciais adotadas por grupos econômicos e sindicatos que controlam o setor. Nem uma quis comentar o assunto.

Um leitor defendeu o direito das transportadoras oferecerem preços mais baixos para conquistar clientes. Nossa reportagem concordou com o argumento, desde que essa oferta não caracterizasse crime de dumping, divisão de mercado e práticas para impedir a entrada de novos operadores no setor. Logo depois do acordo firmado com o valor abaixo do cobrado pelo setor, vem a greve cos empresários-cegonheiros – sempre em total afinidade com as transportadoras e sindicatos patronais que controlam o setor. O leitor concordou com a resposta da nossa equipe.

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Um comentário sobre "Montadoras que pagam frete mais caro ao cartel dos cegonheiros do que concorrente não falam sobre o assunto"

  1. LUIZ CARLOS BEZERRA disse:

    POIS É, NOBRES AMIGOS QUE SEMPRE ACOMPANHAM ESSAS MATÉRIAS BRILHANTES DESSE PORTAL. COMO PODEM VER, ESSE CARTEL DOS CEGONHEIROS JÁ CAUSOU MUITOS PREJUÍZOS AOS POSSÍVEIS CONCORRENTES QUE TENTARAM TRABALHAR NO RAMO E ATÉ TIVERAM SEUS EQUIPAMENTOS INCENDIADOS POR ESSA FACÇÃO, E NINGUÉM FOI PUNIDO ATÉ OS DIAS DE HOJE!
    COMO JÁ FOI DIVULGADO HÁ VÁRIOS ANOS, O GRANDE LÍDER DESSE CARTEL, (NEM PRECISAMOS MAIS CITAR SEU NOME) EXERCE FUNÇÕES POLÍTICAS NO BRASIL, NO ESTADO DE MINAS GERAIS, FATO ESSE QUE JÁ DEVERIA TER SIDO IMPEACHMADO TAMBÉM, POIS OS PREJUÍZOS CAUSADOS PRINCIPALMENTE AOS CONSUMIDORES FINAIS FORAM MUITO ELEVADOS E ESSAS VÍTIMAS JAMAIS SERÃO RESSARCIDAS DESSES VALORES.
    CANCELEM TODOS OS ALVARÁS DE FUNCIONAMENTO DESSAS TRANSPORTADORAS E PROÍBAM A ALEMÃ TEGMA, TAMBÉM DE ATUAR EM NOSSA NAÇÃO, POIS FAZ PARTE DESSA ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA.
    CUMPRAM AS NOSSAS LEIS CONSTITUCIONAIS, SRS. JUÍZES QUE ATUAM NESSAS CAUSAS, POIS SÓ ASSIM ESSE TERRÍVEL CARTEL DEIXARÁ DE EXISTIR EM NOSSA NAÇÃO, ASSIM COMO TODOS OUTROS TAMBÉM DE VÁRIOS SEGMENTOS.
    SALVEM NOSSA NAÇÃO!

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