Montadoras seguem reféns das pressões do cartel dos cegonheiros

Organização criminosa obriga indústria a manter os contratos vigentes e também inviabiliza processos seletivos para contratação de novos prestadores de serviços com melhores condições técnicas e financeiras. Os BIDs – espécie de licitação no setor privado – quando abertos por montadoras, são suspensos devido a pressões ilegais.

De Brasília

Mesmo sob todo o peso de condenações, investigações, denúncias e processos cíveis e criminais a favor da livre concorrência, o cartel dos cegonheiros segue agindo como se fosse dono das cargas da maioria das montadoras que operam no pais. As ações bem-sucedidas dessa organização criminosa contra a abertura do bilionário mercado para operadores com mais condições técnicas e menor preço se acumulam ao longo das últimas décadas. Antes da Jeep, Fiat, Volkswagen, GM, Ford, Nissan, Peugeot, Renault, Kia e Chery já foram vítimas da mão pesada das poucas transportadoras – grupos Sada e Tegma – que controlam o segmento, em parceria com sindicatos patronais. O objetivo desses ataques, deflagrados assim que uma montadora admite abrir concorrência para trocar os atuais prestadores de serviços, é sempre o mesmo: quem está dentro não sai e quem está fora não entra.

Volkswagen
Vale lembrar aqui a denúncia encaminhada à Justiça de São Paulo pela própria Volkswagen. Em 2017, o cartel dos cegonheiros bloqueou por mais de 15 dias (foto de abertura) a planta da marca em São Bernardo do Campo para impedir processo de concorrência aberto pela montadora para contratar novas transportadoras. À época, os advogados da montadora escreveram em petição encaminhada à 8ª Vara da Comarca de São Bernardo do Campo:

“No caso específico da Volkswagen, o expediente ora combatido tampouco é inédito. Já foi abusivamente utilizado, por exemplo, em julho de 2015, quando as rés Brazul, Tegma, Transauto e Transzero, com o auxílio dos cegonheiros, paralisaram os seus serviços de transporte de veículos como represália à tentativa da autora [VW] de contratação de uma única empresa para lhe prestar os mesmos serviços. Pressionada, viu-se a autora obrigada a abandonar tal plano.”

Aqui vale ressaltar que Brazul e Transzero são do grupo Sada. Sada e Tegma dominam mais de 90% do mercado de fretes de veículos novos no país.

Os advogados acrescentaram:

“Menos de um ano depois [portanto, em 2016], nova paralisação das atividades das corrés e dos cegonheiros, desta feita para pressionar a Autora a aceitar o valor de reajuste proposto para os fretes contratados, bem como a obrigá-la a manter os contratos vigentes.”

O parágrafo abaixo, de autoria dos advogados da Volkswagen, merece destaque especial. Neste trecho os representantes da marca alemã revelam a intenção do cartel com as mobilizações, bloqueios e pressões: inviabilizar processo seletivo para contratar novos prestadores de serviços com melhores condições técnicas e financeiras.

Os advogados esclareceram, sobre o bloqueio da fábrica em 2017:

“Por outro lado, sendo as corrés Transauto, Tegma, Brazul, Transzero e Dacunha [esta também pertence ao grupo Sada] os atuais prestadores de serviço de logística e transporte de veículos novos da VWB, é evidente a sua atuação na paralisação, com o fito, mais uma vez, de pressionar a VWB a não realizar processo seletivo para contratar novos prestadores de servições com melhores condições técnicas e financeiras.”

GM
Além de impedir a entrada de novos operadores no mercado, o cartel dos cegonheiros impede o desenvolvimento de novos modais para atender o setor. Em 2014, executivo da Brazul, empresa do grupo Sada, chegou a oferecer desconto de R$ 44 milhões nos fretes para GM congelar um projeto de cabotagem planejado pela marca para transportar em navios veículos produzidos na planta de Gravataí, no Rio Grande do Sul.

Fiat, Volkswagen, Ford e GM
Em 1997, a reação do cartel contra determinação da Fiat de transportar para o Nordeste 800 veículos por semana em navios provocou uma greve nacional dos donos de caminhões-cegonha. A montadora recuou, claro.

Com a pressão, segundo o jornalista da Folha de São Paulo Luis Nassif, o cartel também conseguiu que Volkswagen, Ford e General Motors reduzissem o transporte de veículos por navios.

Peugeot e Citröen
Em 2018, os cegonheiros-empresários que atendem a Groupe PSA, dono das marcas Peugeot e Citröen, não aceitaram perder ou dividir cargas com outra empresa recém-contratada pela Gefco, operadora logística do grupo francês. Durante dois dias (19 e 20 de janeiro), cegonheiros empresários mobilizaram-se em frente à fábrica localizada no município de Porto Real, no Estado do Rio de Janeiro.

Por trás dos manifestantes que reclamavam da ameaça de ficar sem trabalho estavam os interesses de três grandes transportadoras ligadas ao cartel dos cegonheiros: Sada, Brazul e Autoport. O transporte de veículos foi retomado dia 20, nos moldes anteriores.

Nissan e Renault
Em 2019, a Nissan do Brasil Automóveis (grupo econômico da Renault) revelou ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) que o mercado de transporte de veículos novos no Brasil é “extremamente fechado e organizado”. Por conta disso, a montadora “não costuma realizar a contratação de outros fornecedores” fora das empresas que constituem o chamado cartel dos cegonheiros.

No documento enviado ao MP-RJ, cujo conteúdo o site Livre Concorrência teve acesso com exclusividade, a Nissan receia que uma possível troca de transportadora possa deflagrar prejuízos às cargas e aos trabalhadores da marca. Douglas Lemelle, advogado do grupo, explicou o que impede a abertura do mercado:

“Retaliação por parte dos atuais transportadores, uma greve com retenção de carga da empresa. No mais, também existe a possibilidade de incorrer em riscos de segurança com relação aos produtos e pessoas que trabalham na Nissan.”

Caoa-Chery não recuou
Em 2018, o entorno da fábrica da Caoa-Chery, em Jacareí (SP), virou palco de atos de vandalismo e até tentaliva de homicídio, após a empresa Transportes Gabardo, com matriz no Rio Grande do Sul, vencer concorrência aberta pela montadora para escoar os veículos produzidos pela marca. Transportadoras ligadas ao cartel dos cegonheiros perderam a disputa. Apesar da pressão, a montadora não recuou. Os crimes cometidos em Jacareí ainda estão sendo investigados pelo 2º Distrito Policial da cidade. As retaliações não se limitaram à cidade paulista. Vários caminhões da operadora gaúcha foram incendiados em outros estados.

Kia Motors também resistiu
Em 2016, a Transilva Log que transportava parte dos veículos Kia ganhou cotação de preços e conquistou o direito a escoar a totalidade dos veículos importados. A represália foi imediata. Vários caminhões-cegonha foram incendiados criminosamente. O escritório central da Kia Motors, localizado no município de Itu (SP), foi vítima de explosões com coquetéis-molotovs. Ninguém foi identificado pela Polícia. Para se proteger, os advogados da Transilva chegaram a pedir a adoção de medidas cautelares urgentes contra 20 cegonheiros-empresários e a prisão de pelo menos sete deles. A petição foi encaminhada ao Ministério Público Federal.

Antes disso, em 2011, nove caminhões da Transilva Log já haviam sido incendiados criminosamente no pátio da sede da transportadora, em Vitória, no Espírito Santo. Na ocasião, a empresa recém-começara a operar para a Kia.

Para concluir, vale acrescentar as conclusões do delegado da Polícia Federal Rodrigo Sanfurgo, da Delegacia de Repressões a Crimes Fazendários em São Paulo, sobre como o cartel dos cegonheiros age para impedir a entrada de novas transportadoras no setor. As provas foram colhidas nas buscas e apreensões autorizadas pela Justiça no âmbito da Operação Pacto. O delegado revelou:

“Se uma montadora escolhesse uma empresa fora desse cartel, ela (a montadora) era coagida com piquetes e queima de caminhões. Essa coação tinha, muitas vezes, a participação de um sindicato de transportadores do Espirito Santo.”

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Um comentário sobre "Montadoras seguem reféns das pressões do cartel dos cegonheiros"

  1. LUIZ CARLOS BEZERRA disse:

    SENDO ASSIM, NOBRES AMIGOS. O QUE NOS RESTA MAIS A COMENTAR?
    O CONTEÚDO DESSA MATÉRIA JÁ DIZ TUDO.
    O CARTEL DOS CEGONHEIROS É UMA FACÇÃO CRIMINOSA, MUITO PERIGOSA. INCENDEIA AS CARRETAS DAS DEMAIS TRANSPORTADORAS DE VEÍCULOS, NÃO VINCULADAS AO SISTEMA, MESMO COM O CARRETEIRO NO INTERIOR DAS MESMAS. ISSO SE CONSTITUI EM UM CRIME FEDERAL. SENDO ASSIM, A JUSTIÇA DEVERIA AGIR COM MUITO MAIS RIGOR, MANDANDO PRENDER TODOS OS INTEGRANTES QUE LIDERAM ESSE CARTEL, DE FORMA IMEDIATA, POIS ELES SÃO OS MANDANTES DESSES CRIMES HEDIONDOS, E NUNCA SOFRERAM REPRESÁLIAS, POR ISSO QUE ATUAM DA MESMA FORMA, ATÉ OS DIAS DE HOJE.
    CUMPRAM-SE AS LEIS, IMEDIATAMENTE!
    EXTERMINEM ESSE CARTEL DE NOSSO PAÍS!
    SALVEM A NOSSA PÁTRIA AMADA BRASIL!
    DOA A QUEM DOER!

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