Planilhas apreendidas revelam que cartel possui controle absoluto do transporte de veículos novos

Documentos obtidos pela Polícia Federal na sede do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) e na residência do presidente dessa entidade patronal, José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho, revelam como é exercido o controle absoluto do bilionário setor de transporte de veículos. Além de negociar fretes e invadir bases territoriais, o Sinaceg detém informações comercialmente sensíveis de todas as transportadoras do segmento no país.

De São Paulo

Três ações penais em curso, uma condenação em Ação Civil Pública, investigação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), duas operações de busca e apreensão executadas pela Polícia Federal com a participação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco-SBC) e da autoridade antitruste. Soma-se a isso mais de 20 réus respondendo às acusações de formação de cartel e de associação criminosa. Nada é eficaz a ponto de impedir a continuidade delitiva do chamado cartel dos cegonheiros. Os milhares de documentos apreendidos pelos federais explicitam, cada vez mais, como é o modus operandi do esquema ilícito que causa prejuízos de R$ 5 bilhões por ano aos consumidores, além de impedir o ingresso de novos agentes no bilionário mercado de transporte de veículos novos em todo o país. Na última operação deflagrada pela PF, a Ciconia, o material apreendido mostra que o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), que possui a totalidade dos seus associados – todos empresários – agregados às transportadoras investigadas, em conluio, detém dados considerados comercialmente sensíveis de todas as transportadoras de veículos do país, inclusive das que não fazem parte do esquema.

Ao analisar os cerca de seis milhões de arquivos produzidos nas apreensões da Operação Pacto – que antecedeu a Ciconia – os federais já constataram a “relação promíscua” envolvendo as transportadoras investigadas. Em relatório, foi apontado que essas empresas “operam como se fossem uma só”, apesar de se apresentarem como concorrentes. Na operação mais recente, documentos examinados pela PF mostram que a alta cúpula do Sinaceg mantém reuniões constantes com as transportadoras. “Anotações manuscritas que aparentam se tratar de reuniões realizadas entre membros do grupo Sada e do Sinaceg indicam negociações entre operadoras logísticas juntamente com o Sinaceg e as montadoras de automóveis”, apontam os policiais, em parte do material que o site Livre Concorrência teve acesso com exclusividade.

Controle ilícito do mercado

No farto material apreendido pelos federais, uma planilha destaca “de forma minuciosa a divisão de serviços oferecidos pelos operadores logísticos para a Hyundai do Brasil”. Segundo a análise, “há menção de preços, distâncias, descontos e outras métricas praticadas pela empresa Tegma, Gabardo, Brazul e Autoport”. Cabe ressaltar que a Brazul, controlada pelo grupo Sada, é subcontratada da concorrente Tegma Gestão Logística para transportar veículos da marca Hyundai. O analista destaca que no rodapé da folha há a inscrição manual “fretes Gabardo +- 10%, 12%, não sendo possível tecer comentários conclusivos a respeito do escrito devido à falta de contexto”, esclarece o policial federal.

Também foi localizado mapa de distribuição da Hyundai de Piracicaba (SP), “o qual pode indicar a distribuição geográfica dos carros da marca a serem transportados por cada operador logístico”, atenta o agente.

Já sobre o grupo PSA – fabricante das marcas Peugeot e Citroen – os federais encontraram o que qualificam como uma espécie de minuta de acordo com a empresa Autopot. “Não é possível afirmar com convicção qual empresa ou pessoa representa a outra parte no acordo por falta de contexto, muito provavelmente se trata da empresa Brazul (grupo Sada)”, avalia.

Há menção de “reivindicação” da divisão dos serviços prestados nas cidades de Campinas e São Paulo. Em contrapartida, “há a proposta para que a Autoport opere apenas na cidade do Rio de Janeiro”. Causa estranheza os termos empregados, dando a entender que “o direito de transportar os veículos do grupo PSA fosse algo a ser garantido e estabelecido por um mediador ou entidade disposta hierarquicamente acima da operadora de logística, como também se o suposto direito tivesse que passar por aprovação de determinado grupo ou pessoa”, aponta o documento.

Outro documento apreendido comprova o alto tráfego de informações comercialmente sensíveis, típico dos conluios do sistema cartelizante investigado. “O título do documento já sintetiza com exatidão a sua natureza”, ressalta o analista. Nele há um “controle extremamente detalhado a respeito dos veículos transportados pelas empresas Brazul, Dacunha, Nordeste, Transzero, Sada (as quatro integrantes do grupo Sada), Tegma, Transauto, Transmoreno – adquirida pela Júlio Simões – Autoport, Gabardo e Transilva, entre outras, em relação às montadoras de automóveis que comercializam veículos em território nacional”, revela a análise.

Para a PF, tamanho nível de detalhe “pode apontar que o indivíduo que elaborou o documento possuía acesso privilegiado de informações potencialmente sensíveis de praticamente todos os players que atuam no mercado de transporte de veículos zero-quilômetro”. Na mesma toada – segue a avaliação – “pode indicar que tais informações sejam utilizadas para realizar o acompanhamento dos indicativos de performance de outras empresas e determinar posteriormente a divisão e repasse de serviços entre empresas tacitamente parceiras”.

Os policiais federais também apreenderam tabela que contém informações (2021) relativas a quantidade de frotas (caminhões-cegonha) pertencentes a cada empresa envolvida com o sindicato – Sinaceg. “Não é possível afirmar se nessa tabela consta todas as frotas afiliadas ao sindicato, entretanto, chama a atenção a ausência de empresas que, salvo melhor juízo, não pertenceriam ao cartel, como por exemplo a Gabardo e a Transilva”, conclui o agente.

O site Livre Concorrência continua tentando entrevistar o presidente do Sinaceg.

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Um comentário sobre "Planilhas apreendidas revelam que cartel possui controle absoluto do transporte de veículos novos"

  1. LUIZ CARLOS BEZERRA disse:

    POIS É AMIGOS.
    COMO JÁ COMENTEI EM OUTRAS MATÉRIAS DESSE BRILHANTE PORTAL, O TAL DE SINACEG, QUE SE INTITULA COMO “NACIONAL”, JÁ DEVERIA TER SIDO PROIBIDO DE ATUAR EM NOSSA NAÇÃO BRASILEIRA, HÁ MUITO TEMPO, CAUSANDO SÉRIOS PREJUÍZOS, PRINCIPALMENTE AOS CONSUMIDORES FINAIS, E ÀS DEMAIS TRANSPORTADORAS DE VEÍCULOS, NÃO VINCULADAS AO SISTEMA, TAMBÉM JÁ DEVERIAM TER SEUS RESPECTIVOS “ALVARÁS DE FUNCIONAMENTOS”, CANCELADOS, HÁ MUITO TEMPO E, OS PROPRIETÁRIOS DESSAS TRANSPORTADORAS DE VEÍCULOS, QUE FAZEM PARTE DO SISTEMA, TAMBÉM DEVERIAM SER PUNIDOS, HÁ MUITO TEMPO.
    QUE PAÍS É ESSE, ONDE BANDIDOS SÃO BENEFICIADOS, AO PASSO QUE OS CIDADÃOS DE BEM, FICAM PROIBIDOS DE TRABALHAR, DEVIDO A ESSE CARTEL DOS CEGONHEIROS.
    ATÉ O GRANDE LÍDER DESSA ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA, TAMBÉM É UM POLÍTICO, PREFEITO DE BETIM-MG, QUE JÁ DEVERIA TER SIDO IMPEACHMADO DESSAS FUNÇÕES, HÁ MUITO TEMPO MESMO!
    SALVEM A NOSSA NAÇÃO BRASILEIRA, SRS. JUÍZES E DESEMBARGADORES, QUE ATUAM NESSES CASOS.
    NADA MAIS A COMENTAR!

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