Verticalização imposta pelos maiores bancos é uma ameaça ao setor de transporte de valores, diz diretor da Fenaval

Diretor executivo da Federação Nacional dos Transportadores de Valores (Fenaval) e presidente da Associação Brasileira dos Transportadores de Valores (ABTV), Ruben Schechter (foto de abertura) garantiu, em entrevista exclusiva ao site Livre Concorrência, que a verticalização dos serviços imposta pelos cinco maiores bancos do país se constitui numa ameaça ao setor de transporte de valores. Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal são sócios da TBForte, empresa que foi criada em 2007 “para desestabilizar o setor”, assegura o executivo. A empresa também controla a TecBan – detentora do monopólio dos caixas eletrônicos (máquinas conhecidas como ATMs) – que pode se beneficiar, segundo ele, de informações privilegiadas em certames licitatórios e só atua em locais onde há rentabilidade.
Ao comentar as recentes decisões do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) que aprovou dois atos de concentração da Brink’s e da Prosegur, Schechter deixou claro que discorda da opinião manifestada pelo site Livre Concorrência. Ele acredita que o órgão antitruste não está a favor das grandes empresas, mas ao lado das pequenas que, não tendo condições de competir, sentem-se obrigadas a vender sua participação no mercado ao enfrentar o dilema vende ou fecha. Além disso, ressalta o dirigente, o próprio Cade argumenta que reconhece as dificuldades do setor, onde 70% do faturamento das empresas de transporte e custódia de valores são oriundas da rede bancária.
Fenaval, TBForte e TecBan travam intensa disputa no Cade que recentemente instaurou procedimento preparatório de inquérito administrativo para apurar possíveis práticas de infrações à ordem econômica. A entidade se queixa da participação das duas empresas que são controladas pelos cinco maiores bancos do país. E as empresas, por sua vez, apontam para atitudes anticoncorrenciais praticadas pela entidade em defesa de suas associadas.
O Tribunal de Contas da União (TCU) também chegou a ser acionado e avaliou denúncias envolvendo o setor. Schechter esclarece:

“Aqui são fatos distintos: o TCU analisou o  fato de BB e CEF serem acionistas de empresa que participa de licitações públicas. De fato não constatou irregularidade, mas isso não está definido e solicitou que as duas instituições públicas esclareçam a questão dos prejuízos que a empresa da qual são sócios registra.”

O órgão técnico de controle e fiscalização também determinou que BB e CEF expliquem a atuação de servidores na administração da TBForte e TecBan. 
Prejuízos
Schechter destacou que não faz acusações:

“Apresentamos provas. A TBForte vem operando sistematicamente com prejuízos desde 2014. Isso pode ser comprovado por meio dos seus balanços.”

Segundo o executivo da Fenaval, nos últimos anos, a TBForte registrou prejuízo superior a R$ 200 milhões. Ele acredita que isso é decorrente da prática de preços predatórios para ganhar serviços e esse prejuízo é suportado pelos bancos acionistas.
Para Schechter é impossível dissociar TBForte e TecBan do poder econômico exercido pelas maiores instituições financeira do país:

“Basta ver o anúncio do lucro dos bancos em 2019, de R$ 96 bilhões. Equivale a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. O menor deles lucrou R$ 18 bilhões. Isso representa mais recursos do que o faturamento de todas as empresas de transporte e custódia de valores que atuaram no Brasil ao longo do ano passado.”

Diferente de executivos de outros setores da economia, Schechter diz não temer represália por suas colocações:

“Defendemos uma categoria. Nossa entidade não é contratada para prestação de serviços. Nossos argumentos são utilizados para fazer uma defesa institucional.”

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